A nota oficial do Ministério das Relações Exteriores, divulgada na quarta-feira (26), elevou a tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos, ao criticar duramente a declaração de um departamento do governo americano sobre a imposição de multas a empresas sediadas nos EUA e censura a residentes do país. “O Brasil não deveria ter se envolvido nesse processo, assim como não se envolveria em outros casos semelhantes”, disse Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington e Londres. Na concepção do diplomata, a nota do Itamaraty escalonou o caso e o levou à esfera governamental.

“O governo brasileiro rejeita, com veemência, qualquer tentativa de politizar decisões judiciais e reafirma a importância do respeito ao princípio republicano da independência dos poderes, garantido pela Constituição Federal de 1988”, destacou o Itamaraty.

A nota oficial foi uma resposta à manifestação do Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental dos Estados Unidos, feita pelas redes sociais e replicada pela Embaixada dos EUA no Brasil. O órgão americano, vinculado ao Departamento de Estado dos EUA, criticou o bloqueio de plataformas de redes sociais de matriz americana, como X e Rumble, e a censura de usuários residentes dos EUA.

“O respeito à soberania é uma via de mão dupla com todos os parceiros dos EUA, incluindo o Brasil. Bloquear o acesso à informação e impor multas a empresas sediadas nos EUA por se recusarem a censurar indivíduos que lá vivem é incompatível com os valores democráticos, incluindo a liberdade de expressão”, afirmou o Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental.

O posicionamento do Itamaraty insere-se em um cenário de crescente embate jurídico e administrativo contra o ministro Alexandre de Moraes, do STF, podendo converter-se em um incidente de maiores proporções na relação bilateral.

Além da declaração do Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental, tramitam na Câmara dos Deputados dos EUA propostas que visam cassar o visto de Moraes, além de um pedido formal para que o governo americano o sancione com base na Lei Magnitsky. A legislação, voltada para estrangeiros acusados de violações de direitos humanos e corrupção, prevê bloqueio de ativos financeiros dentro e fora dos EUA e impede o ingresso em território americano.

Segundo fontes do governo ouvidas pela Gazeta do Povo, a declaração do orgão vinculado ao Departamento de Estado dos EUA causou incômodo no Palácio do Planalto, que resolveu responder de forma contundente.

Especialistas consultados pela reportagem alertam, porém, que o episódio pode comprometer a relação bilateral, sobretudo à medida que o governo brasileiro se engaja no debate. Na avaliação de Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington e Londres, o posicionamento da chancelaria brasileira foi equivocado e não deveria ter acontecido.

Para críticos da resposta do governo brasileiro, a reação do Itamaraty reforça a percepção de alinhamento entre Palácio do Planalto e STF.

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