Protestos eclodiram em pelo menos 17 das 31 províncias do Irã, representando o maior desafio ao regime clerical do país desde 2022, segundo análise conjunta da BBC Verify e da BBC Persa. A onda de protestos se espalhou rapidamente pelo Irã desde 28 de dezembro, quando a insatisfação explodiu inicialmente na capital, Teerã, após uma nova e acentuada desvalorização da moeda do país frente ao dólar e a outras moedas estrangeiras importantes. Imagens verificadas dos últimos dez dias mostram evidências de atos e concentrações contra o governo em mais de 50 cidades em todo o país, inclusive em regiões antes consideradas altamente leais ao Estado.

Mais de 100 vídeos, geolocalizados e checados quanto à data de publicação, revelam a dimensão da instabilidade, com pessoas ocupando as ruas em muitas das principais cidades do Irã, no que se configura como o maior desafio ao Estado desde os protestos Mulheres, Vida e Liberdade, em 2022.

As imagens também mostraram manifestações em Qom, no centro do país, e em Mashhad, no nordeste, cidades que tradicionalmente concentram populações extremamente leais à República Islâmica.

O professor Sina Azodi, diretor do Programa de Estudos do Oriente Médio da George Washington University (EUA), afirmou que a agitação nessas cidades é “muito reveladora” e equivale a uma prova de que “a base de apoio do governo também está sofrendo com as dificuldades econômicas”.

As autoridades iranianas tradicionalmente recorrem à violência para reprimir episódios de agitação social. Durante os protestos de 2022 — desencadeados pela morte sob custódia de Mahsa Amini, uma jovem detida em Teerã por usar um “hijab inadequado” — mais de 550 pessoas teriam sido mortas pelas forças de segurança, segundo organizações de direitos humanos.

Embora a resposta mais recente da polícia e das forças de segurança tenha parecido inicialmente mais contida, imagens verificadas mostram que o uso da força vem sendo intensificada desde sábado. A mudança de postura coincidiu com a primeira reação pública do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, que afirmou em 3 de janeiro que os “desordeiros precisam ser colocados em seus lugares”.

Após as declarações do líder supremo, o chefe do Poder Judiciário iraniano, Gholamhossein Mohseni Ejei, disse que as autoridades iriam “ouvir manifestantes e críticos que, de forma legítima e justa, têm preocupações com seu sustento e com o bem-estar social e econômico”.

Mas acrescentou que o governo irá “agir com firmeza contra aqueles que buscam explorar a situação, incitar tumultos e minar a segurança do país e da população”.

A poderosa Guarda Revolucionária Islâmica também emitiu alertas a manifestantes na província de Lorestan, afirmando que não irá mais tolerar concentrações nas ruas.

A BBC Persa confirmou até agora a identidade de pelo menos 11 pessoas que teriam morrido desde 28 de dezembro, com base em uma combinação de vídeos de funerais verificados com entrevistas com familiares e amigos.

Já a Agência de Notícias dos Ativistas de Direitos Humanos (HRANA, na sigla em inglês), com sede no exterior, afirma que ao menos 35 pessoas morreram até o momento nos distúrbios, entre elas duas ligadas às forças de segurança.

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