O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, prepara uma ofensiva para aumentar o rigor e a transparência das pesquisas eleitorais no país. A iniciativa surge após as eleições de 2022, quando milhões de brasileiros acompanharam com surpresa a apuração de disputas cujos resultados nas urnas destoaram de projeções divulgadas pelos principais institutos.
As discrepâncias alimentaram questionamentos sobre a credibilidade dos levantamentos e a capacidade das metodologias de retratar com precisão o comportamento do eleitorado. Para especialistas, é importante o fortalecimento dos mecanismos de transparência. Ao mesmo tempo, há receio de que alterações possam criar brechas para interferências políticas e censura.
As divergências entre pesquisas e resultados das urnas em 2022 ficaram evidentes em disputas de grande relevância. O caso considerado mais emblemático ocorreu na disputa pelo Senado no Paraná. Na véspera da eleição, pesquisa do Ipec colocava Álvaro Dias na liderança, com 41%, seguido por Sérgio Moro, com 35%, e Paulo Martins, com 14%. Nas urnas, porém, Moro foi eleito com 33,5%, Martins apareceu em segundo lugar com 29,1%, e Álvaro Dias caiu para a terceira posição, com 23,9%. O episódio é apontado por analistas como um dos maiores erros de projeção registrados nas eleições de 2022.
A eleição presidencial também destoou das estimativas. Os principais institutos projetavam na véspera do primeiro turno uma vantagem de 11 a 14 pontos percentuais de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Jair Bolsonaro, mas a diferença final foi de apenas 5,2 pontos. Os levantamentos também tiveram dificuldades para captar o desempenho de candidatos em disputas estaduais. No Rio de Janeiro, por exemplo, as pesquisas indicavam vantagem de Cláudio Castro variando entre 9 e 19 pontos percentuais sobre Marcelo Freixo, enquanto o resultado das urnas mostrou uma distância de 31,3 pontos.
Foi justamente esse conjunto de erros que levou Kassio Nunes a defender mudanças no sistema de pesquisas eleitorais. Em junho, o ministro suspendeu liminarmente uma pesquisa que associava o candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) ao presidente do Banco Master, Daniel Vorcaro. A decisão começou a ser avaliada pelo plenário, mas um pedido de vista suspendeu o julgamento.
O episódio se insere em um movimento mais amplo liderado pelo ministro para revisar os mecanismos de transparência e fiscalização dos levantamentos eleitorais. Entre as propostas discutidas está a criação de um selo de qualidade para institutos cujas projeções apresentem maior proximidade com os resultados das urnas.
“Pesquisas medem um retrato do momento, e não uma previsão definitiva do resultado da urna”, afirma Francieli de Campos, advogada e professora de Direito Eleitoral. Segundo ela, vincular a legitimidade de um instituto ao acerto do resultado final pode gerar questionamentos jurídicos e até exigir aprovação de lei pelo Congresso caso a iniciativa ultrapasse o caráter meramente informativo.
Para a especialista, a ampliação da transparência é positiva, mas deve ocorrer sem que a Justiça Eleitoral passe a definir quais metodologias são mais adequadas. “A liberdade de produção e análise deve ser preservada garantindo que a Justiça Eleitoral não atue como juíza da metodologia estatística ideal”, afirma.
Após a reação dos institutos, Kassio recuou temporariamente da ideia do selo, mas manteve a intenção de ampliar a transparência das pesquisas.
O ministro estaria, então, preparando um modelo mais detalhado para o registro de pesquisas, incluindo mais informações sobre a composição das amostras e o perfil do eleitorado, segundo informações da Folha de S. Paulo. Para Kassio, o protocolo atual de registros é amplo e carece de sistematização que facilite a compreensão dos dados pelo público. A intenção também seria ampliar o acesso dos cidadãos às informações sem necessidade de recorrer à Justiça.
“Regulamentações focadas em dados abertos e autorregulamentação do setor tendem a ser mais eficazes e imunes à captura política do que tentativas estatais de ranquear ou validar o ‘acerto’ das estatísticas”, destaca Campos.
Pesquisas influenciam eleitores
Ricardo de João Braga, doutor em Ciência Política, ressalta a importância das pesquisas no período eleitoral. Segundo ele, os levantamentos influenciam eleitores que utilizam o chamado voto estratégico, escolhendo um candidato com mais chances de vitória para evitar a eleição de outro considerado indesejável.






