O governador Elmano de Freitas (PT) passou a utilizar, em junho de 2026, pouco antes do início do período eleitoral, a tecnologia da startup Pax na operação de videomonitoramento do Ceará. A empresa atua sob o mesmo CNPJ da Paladium Corp (56.025.090/0001-20), mas passou a adotar a marca Pax. A Paladium é alvo de questionamentos de órgãos de controle em outros estados sobre o modelo de contratação e o tratamento de dados sensíveis.
No Ceará, a Pax, antiga Paladium Corp, ingressou no sistema de segurança pública por meio de uma Prova de Conceito (POC), procedimento utilizado para demonstrar a eficiência de uma solução antes de uma eventual contratação. O modelo também foi adotado em outros estados e passou a ser questionado por órgãos de controle. Em São Paulo, o Tribunal de Contas apura se a parceria firmada pela Prodesp poderia ter resultado em uma contratação indireta da Paladium.
Em Goiás, o Ministério Público questionou a forma de contratação da empresa. A atuação da Pax na Expocrato 2026 resultou inicialmente na identificação e prisão de 19 pessoas com mandados de prisão em aberto por meio da ferramenta de inteligência artificial disponibilizada pela empresa. O número, porém, foi posteriormente atualizado pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) para 24 prisões durante o evento.
O desempenho da ferramenta foi comemorado pelo governador Elmano de Freitas durante debate, no último dia 15 de setembro. Na ocasião, o petista destacou os resultados obtidos com o sistema, mas não mencionou os questionamentos existentes em outros estados sobre a contratação da empresa e o tratamento das informações captadas pelas plataformas de videomonitoramento.
O tema também ganhou repercussão no debate político nacional. Em entrevista recente, Fernando Haddad, candidato do PT ao Governo de São Paulo, criticou a relação da empresa com o governo paulista e questionou a contratação por meio da Prodesp, envolvendo recursos da Secretaria da Segurança Pública no valor de R$ 475,8 milhões.
“Como é que uma empresa com menos de um ano de existência consegue um contrato de meio bilhão de reais com o governo do estado, sem licitação?”, questionou o petista. Em seguida, citou a sede da empresa em Delaware e relacionou o tema às críticas feitas pelo presidente Lula à utilização do estado norte-americano em operações financeiras. A estrutura societária ligada a Delaware também aparece nos questionamentos feitos pelo Ministério Público de Goiás.
Na ação que levou à suspensão do contrato de videomonitoramento, a promotora Leila Maria de Oliveira apontou a participação da Paladium Holdings LLC, sediada em Wilmington, Delaware, na composição societária relacionada à Paladium. O processo envolvia a expansão do sistema de videomonitoramento com inteligência artificial e um contrato de R$ 304,8 milhões firmado pelo governo goiano por meio da Goiás Telecom.
Como funciona o sistema da Pax e os riscos à população cearense
Os riscos para a segurança dos cearenses e para a proteção de dados associados à atuação da Pax na segurança pública, sem contrato direto com o Governo do Estado, já foram alvo de críticas e alertas em Goiás, São Paulo e Paraná, onde a empresa atuou sob o nome Paladium.
No Ceará, o sistema instalado e operado pela empresa acessa o acervo de câmeras públicas e bases da segurança pública, incluindo boletins de ocorrência, mandados de prisão em aberto e registros do Departamento Estadual de Trânsito (Detran), além de dados sensíveis, como informações biométricas.
O acesso ocorre sem um contrato de prestação de serviços firmado diretamente com o Governo do Ceará que estabeleça, de forma detalhada, as regras para utilização, armazenamento e tratamento dessas informações. Em Goiás, a promotora de Justiça Leila Maria de Oliveira apontou possíveis violações à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) no modelo adotado. “Os dados privados dos cidadãos permanecerão sob a responsabilidade de uma empresa privada, sem efetivo controle estatal”, afirmou.
“Em matéria de videomonitoramento inteligente com reconhecimento facial, o dano não é apenas patrimonial; ele alcança a probidade administrativa, a legalidade da atuação policial, a segurança da informação e direitos fundamentais à proteção de dados”, completou a promotora.
A professora de Computação da Universidade Federal Fluminense (UFF) Flávia Bernardini também alertou para os riscos relacionados ao tratamento dessas informações por empresas com vínculos internacionais. “A gente está simplesmente pegando nossos dados sensíveis de pessoas físicas brasileiras e dando para outro país, sabe-se lá para quê”, disse.







