Supervisor da Ficco/CE, o delegado da Polícia Federal Daniel Ramos explicou que os parlamentares envolvidos na investigação teriam recebido apoio financeiro da facção criminosa nas eleições de 2024, quando ainda eram candidatos, e, em troca, retribuído com nomeações em cargos públicos e outras vantagens.

“Esse fluxo financeiro: eles pedindo dinheiro para esse faccionado, para essa liderança que devolvia dinheiro e era retribuído com nomeações, também com dinheiro de volta. Enfim, são várias as movimentações que existiram com relação a isso”, contou Ramos ao O POVO nesta quinta em entrevista na sede da PF, em Fortaleza.

Questionado se os nomeados fazem parte dos alvos da operação, o delegado informou que sim e que seriam duas pessoas, mas não as identificou. Ele também estimou que o fluxo financeiro nessa primeira fase passou de R$ 100 milhões, mas ressaltou que o montante ainda é analisado.

“Isso de toda a organização, de toda a representação em si. Não quer dizer que foram só a facção, só os alvos vereadores, não. Isso de toda a investigação, [na qual] nós identificamos esse fluxo financeiro. A ideia é justamente ver se existe parte lícita, se a maioria ou boa parte era ilícita mesmo. Agora, é a investigação que vai dizer”, ponderou.

Documentos aos quais O POVO teve acesso ainda em dezembro de 2025 indicavam que, pelo menos, três então candidatos a vereador e um a prefeito teriam recebido valores que variavam entre R$ 100 e 375 mil. Na época, um homem foi preso e a extração dos dados dos aparelhos apreendidos mostrou que uma das formas utilizadas por ele para lavar o dinheiro era através de empréstimos mediante pagamento de juros (“agiotagem”).

“Nós identificamos, de fato, um caminho do dinheiro que estava sendo remetido para esses candidatos a vereadores nas eleições de 2024. As investigações apresentaram o fluxo financeiro desse financiamento da facção criminosa direcionada a esses vereadores”, narrou Ramos.

Além dos parlamentares presos, foi alvo da operação Marco Bica, que era diretor da Superintendência de Obras Hidráulicas do Ceará (Sohidra). Ele pediu afastamento do cargo após a ação policial.

A Operação Traditori busca interromper o fluxo financeiro do grupo e garantir o avanço das investigações, que apontam para a existência de um esquema de movimentação e ocultação de recursos de origem ilícita, supostamente ligado a uma facção criminosa.

Segundo a apuração, o dinheiro seria utilizado para financiar campanhas eleitorais, o que indicaria uma tentativa de infiltração do crime organizado na política local. De acordo com a PF, a organização criminosa é envolvida em lavagem de dinheiro, tráfico de drogas, financiamento ilícito de campanhas e outros crimes eleitorais.

Daniel Ramos explica que “a ideia foi visualizar, a princípio, a lavagem de dinheiro dessa facção criminosa que atuava lá”.

“Nós tínhamos algumas lideranças lá que foram a investigação aprofundada. Quando realizou-se esse aprofundamento financeiro, nós identificamos de fato esse elo através tanto do financeiro, mas [também de] interceptação telefônica, áudios gravados. Enfim, tudo isso. Esse elo, vamos dizer, promíscuo, entre esse componente importante, público e notório que é faccionado lá na região com os vereadores”.

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