Com dezenas de assassinatos brutais em pleno dia, torturas, esquartejamentos, domínio de prisões e até um cemitério clandestino na capital Boa Vista, o grupo terrorista venezuelano Tren de Aragua tem espalhado terror e se consolida como uma das principais facções criminosas instaladas em Roraima. O estado fronteiriço da região Norte é assolado pelo crime organizado, com 13 de seus 15 municípios dominados por facções. Além do Tren de Aragua, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) estão entre as facções que controlam o estado brasileiro, que possui o menor número de cidades.

Segundo a 4ª edição do estudo “Cartografias da Violência na Amazônia”, os municípios com presença de facções são: Alto Alegre, Amajari, Bonfim, Cantá, Caracaraí, Caroebe, Iracema, Mucajaí, Normandia, Pacaraima, Rorainópolis, Uiramutã e Boa Vista. São Luiz e São João da Baliza não registram presença confirmada de facções. O estudo foi produzido pelo Fórum de Segurança Pública em parceria com os institutos Clima e Sociedade, Itausa, Mãe Crioula e Laboratório Interpretativo Laiv.

Relatório de inteligência da Polícia Civil de Roraima aponta que integrantes do Tren de Aragua disputam o controle do tráfico de drogas com outros grupos venezuelanos e brasileiros em diferentes áreas da capital Boa Vista, o que tem gerado uma explosão de homicídios e tentativas de assassinato nos últimos anos.

De janeiro até o início de outubro deste ano, mais de 50 migrantes foram vítimas dos dois tipos de crime — de 1º de janeiro até 10 de outubro, o estado registrou 39 homicídios, conforme o relatório. Dessas vítimas, 21 eram venezuelanas, entre homens e mulheres, o que representa 53,8% do total. As outras 18 (46,1%) eram brasileiras. No mesmo período, ocorreram 66 tentativas de homicídio. Entre os alvos, 34 eram brasileiros e 32 venezuelanos.

Na semana passada, um chefe da facção venezuelana foi preso em Manaus na terceira fase da operação Afluência, que investiga uma série de assassinatos vinculados a uma facção venezuelana na zona oeste de Boa Vista. Segundo a investigação, o grupo é responsável por mais de 10 homicídios motivados pela disputa por pontos de venda de drogas na capital. Até o momento, seis pessoas já foram presas e materiais como drogas e armas foram apreendidos como parte das investigações. A polícia informou que outros suspeitos seguem procurados. Todos os investigados são venezuelanos.

Crise humanitária na Venezuela favorece expansão do Tren de Aragua

A imigração decorrente do caos social e político provocado pelo governo do ditador Nicolás Maduro obrigou os venezuelanos a buscarem ajuda e refúgio longe de casa, tendo Roraima, que faz fronteira com a Venezuela, como um dos principais destinos junto com a Colômbia. Com a chegada de milhares de imigrantes do país vizinho, o governo federal criou a operação Acolhida. Neste contexto, integrantes do Tren de Aragua começaram a chegar pelo menos desde 2016.

A influência do grupo em Roraima cresceu conforme aumentava o fluxo de venezuelanos na fronteira. Entre 2015 e 2019, foram registrados 178 mil pedidos de refúgio ou residência temporária no Brasil. Com o agravamento da crise econômica na Venezuela, esse deslocamento se tornou mais intenso. Roraima teve, em 2022, o maior crescimento populacional do país, mas ainda é o estado menos populoso de todos: tem 637 mil habitantes, segundo o IBGE.

Dados oficiais mostram que os assassinatos saltaram de 90, em 2020, para 127, no ano seguinte em Roraima, quando a facção conquistou pontos de droga na capital para vender cocaína trazida da Venezuela. Entre março e agosto de 2021, a polícia atribuiu doze assassinatos em Boa Vista ao Tren de Aragua. Em quatro, as vítimas foram esquartejadas e seus corpos abandonados em vias públicas. Boa Vista terminou aquele ano como a quinta capital brasileira com maior índice de mortes violentas – 35 por 100 mil habitantes.

Em janeiro deste ano, a Polícia Civil de Roraima localizou um cemitério clandestino atribuído à facção da Venezuela em Boa Vista, no qual foram encontrados nove corpos. O local ficava em uma área de mata entre os bairros Pricumã e Cinturão Verde, na zona Oeste de Boa Vista. Entre as vítimas encontradas havia um homem esquartejado, ossadas, corpos em avançado estado de decomposição e duas mulheres enterradas abraçadas na mesma cova.

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