Enquanto a criminalidade e o domínio das facções avançam no Ceará, o Estado registrou uma redução de 78,28% no orçamento destinado à segurança pública entre 2024 e 2025, segundo dados do Portal da Transparência. O corte ocorre em um cenário crítico, no qual a violência deixou de ser episódica e passou a integrar o cotidiano da população: há mais de uma década, o Estado apresenta uma trajetória ascendente da criminalidade, marcada por instabilidade e falhas estruturais no enfrentamento ao delito.

Esse histórico ajuda a explicar por que, nesse contexto, a segurança pública permanece, ano após ano, como um dos principais desafios do Ceará, atravessando diferentes gestões que, mesmo alinhadas politicamente, não chegam a um denominador comum para enfrentar o problema de forma efetiva. O avanço dos Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) expõe o contraste entre o discurso de “investimentos e combate à criminalidade” e os resultados concretos, mantendo um ciclo que amplia a sensação de insegurança e a cobrança por respostas consistentes.

Os números reforçam esse cenário. Um estudo do O Otimista aponta que, nos últimos 11 anos, o Ceará acumulou uma média de 3.500 homicídios por ano, desde que o Partido dos Trabalhadores assumiu, em 2015, o Executivo estadual no primeiro mandato de Camilo Santana, hoje ministro da Educação. Foram oito anos sob a gestão do petista e mais três do atual governador Elmano de Freitas.

Em 2025, terceiro ano do mandato de Elmano, o Ceará registrou 3.021 homicídios. Para efeito de comparação, São Paulo, com população cinco vezes maior, ficou abaixo de 2.200 homicídios. Segundo dados do IBGE, o Ceará tem 8,7 milhões de habitantes, enquanto São Paulo contabiliza 44,4 milhões. No acumulado dos últimos 11 anos, o Estado somou 38.905 homicídios, conforme dados da Supesp, vinculada à Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS).

Com isso em mente, o advogado e consultor em segurança pública Laécio Noronha Xavier fez uma avaliação crítica da política adotada pelo governo estadual. “Nós não temos um projeto de segurança, não há continuidade. O próprio Elmano desmonta o que havia sido montado, bem ou mal, o Ceará Pacífico, para dar lugar a um projeto que a gente não conhece”. Ele também apontou a ausência de mecanismos de análise e planejamento: “Sem avaliação, sem conselho de segurança pública para analisar, não há um projeto de largo alcance histórico na segurança pública. É um dos problemas”.

Outros dados

Em 2025, foram empenhados R$ 1,2 bilhão para a área, ante R$ 5,6 bilhões em 2024, o que representa uma redução de R$ 4,4 bilhões. A participação da segurança pública no orçamento estadual também recuou de 12,26% para 2,88%. Diante desse cenário, o deputado estadual Pedro Matos (Avante) afirma que os investimentos anunciados pelo governo não se traduzem em resultados concretos. Ele cita a falta de policiamento ostensivo, de inteligência integrada e de convocação efetiva de agentes, mesmo após a realização de concursos. “O governador discursa sobre a convocação, mas a execução é fraca e fica só na promessa”, disse em entrevista ao O Otimista.

Segundo o parlamentar, a população sente diretamente os efeitos da ausência do Estado. “As pessoas evitam sair à noite, comerciantes fecham mais cedo e o sentimento é de abandono”, pontuou. E concluiu: “Sem reforço no efetivo policial, sem presença constante nas ruas e sem uma estratégia clara, a segurança pública virou um dos maiores fracassos do atual governo”.

Procurada, a SSPDS informou, em nota, que o Ceará encerrou 2025 com redução de 7,7% nas mortes violentas, enquanto Fortaleza registrou queda de 11%. A pasta destacou ainda que as prisões por integrar organizações criminosas cresceram 96,1% e que as capturas por homicídio aumentaram 32,5% no mesmo período.

2024 – 2025

Das 3.272 mortes violentas no Ceará em 2024, metade das vítimas tinha até 29 anos, incluindo 304 crianças e adolescentes. Segundo a Folha de S.Paulo, em 2025 Fortaleza tornou-se o principal foco da disputa entre facções, com impacto direto em Caucaia, Maracanaú e Maranguape. No mesmo ano, os três municípios estiveram entre os dez mais violentos do país, com Maranguape liderando o ranking nacional.

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