O ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty, que já dava sinais concretos de abandono da política de neutralidade, foi transformado nesta semana em palanque político para a campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo analistas ouvidos pela reportagem. A pasta está sendo usada para difundir a tese falsa de que os Estados Unidos atuariam hoje como um adversário voraz aos interesses nacionais e estariam supostamente prontos para fazer ataques militares no Brasil.

O Itamaraty afirmou que a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas por Washington engloba “a possibilidade do uso da força militar dos Estados Unidos em território brasileiro”. A administração de Donald Trump classificou a declaração como “absurda”.

Segundo analistas ouvidos pela reportagem, a afirmação da diplomacia brasileira é uma construção retórica sem lastro na realidade geopolítica, que atende a um propósito eleitoreiro: inflar o sentimento de ameaça externa e reposicionar Lula como o líder da resistência nacional ante uma potência estrangeira.

“Nenhuma autoridade americana mencionou ação militar no Brasil. O que existe concretamente é a designação FTO [sigla em inglês para organização terrorista estrangeira], que abre caminho para bloqueio de ativos e sanções contra quem apoia essas facções, não para intervenção armada”, avalia Cezar Roedel, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e analista internacional.

“Ampliar esse risco jurídico para uma narrativa de ameaça militar iminente parece atender mais a um objetivo de mobilização política interna em tempos de eleição do que a uma leitura técnica da medida”, avalia .

O posicionamento do Itamaraty ocorreu em um documento enviado à Câmara em 1º de julho em resposta a um pedido de explicações protocolado pelo deputado federal Evair Vieira de Melo (Republicanos-ES) a respeito das consequências decorrentes da classificação de facções brasileiras como terroristas que foi anunciada em maio e formalizada neste mês pelo governo Trump.

Procurado pela Gazeta do Povo para manifestar-se sobre o teor político do requerimento e a ausência de respostas objetivas às indagações formuladas pelo Legislativo, o Ministério das Relações Exteriores afirmou apenas que o requerimento enviado à Câmara “foi integralmente respondido”.

Parlamentares da oposição liderados por Evair de Melo consideraram os esclarecimentos insuficientes e começam a articular uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar a pasta e o possível mentor do uso político do Itamaraty: o ex-chanceler Celso Amorim, hoje assessor especial de Lula.

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