A lobista Roberta Luchsinger estava em casa, na noite de 27 agosto, quando seu celular começou a tocar insistentemente. Eram ministros do governo, amigos, jornalistas e pessoas próximas ao presidente da República. Naquele instante, ela não atendeu ninguém. Estava atônita, sem saber o que fazer, surpreendida com o que Lula havia acabado de declarar em uma sabatina no Jornal Nacional, da TV Globo. O petista havia sido perguntado sobre suas relações com a lobista. A resposta foi incisiva: “Eu não conheço essa moça, nunca vi essa moça na minha vida, nunca conversei com essa moça, ela nunca esteve próxima de mim”. E arrematou: “É uma pilantra!”.

Segundo suspeitas da Polícia Federal, Roberta atuava em sociedade com Fábio Luís da Silva, primogênito do presidente, na caça a negócios dentro do governo federal. A primeira reação da lobista às palavras do presidente foi soltar um palavrão. Na sequência, chorou. Depois de algumas horas, ainda bastante alterada, atendeu o telefonema de um dos filhos de Lula que se solidarizou com ela e se disse surpreso com as declarações do pai. Luchsinger desabafou: “Se eu pudesse escolher uma palavra para definir o que o presidente fez, diria que ele foi covarde. Além de mentir, foi machista, misógino e canalha”.

Por mais de um mês, a lobista aguardou um pedido de desculpas que não veio. Pelo contrário. Lula voltou a chamá-la de “pilantra” e de “Vorcaro feminino”, uma referência ao banqueiro Daniel Vorcaro. “Pelo que sei, ela é uma pilantra muito grande. Ela muito se assemelha ao Vorcaro, porque o Vorcaro conseguiu enganar um monte de gente e ela também parece que enganou um monte de gente. Deve ser o Vorcaro feminino, porque ela conseguiu passar por muita gente”, acusou o presidente.

Luchsinger, depois de ouvir isso, pensou em “explodir tudo”, mas foi aconselhada pelos seus advogados a não fazer nada pelo menos até o final das eleições. Personagem central de um inquérito que investiga tráfico de influência e corrupção, foi alertada sobre a possibilidade de ser alvo de novas medidas restritivas. Ela concluiu que era melhor tentar se acalmar, esperar o fim do segundo turno para avaliar melhor o que fazer: “Um monte de ministro me ligou. Todo mundo com medo, né? Medo de eu abrir minha boca. Porque, se eu abrir a minha boca, ele perde (Lula) a eleição. Esse é o B.O”

Desde que seu nome apareceu como sócia do filho do presidente, Luchsinger passou a receber mensagens ameaçadoras. Os ataques aumentaram depois das acusações de Lula. O ápice, porém, se deu na semana passada. Uma das filhas da lobista, de 14 anos, recebeu uma ameaça de morte. Luchsinger já desconfiava que as investigações estavam sendo conduzidas de modo a mostrar que ela utilizaria indevidamente o nome do filho do presidente para fechar negócios. As declarações do presidente e as ameaças à filha fariam parte desse plano para incriminá-la.

Atordoada e convicta de que estava em andamento um plano apoiado pelo Palácio do Planalto para desqualificá-la, decidiu reagir. No sábado 17, concedeu uma entrevista à CNN Brasil, tornou público o desabafo que já havia feito reservadamente em relação ao presidente Lula e advertiu: “Não serei o boi de piranha que tanto querem colocar tudo em cima de mim. O que eu fiz, se for crime, vou responder, vou me defender, vou responder ao devido processo legal que, aliás, é uma coisa que o presidente da República sempre disse muito sobre ele”.

Luchsinger nunca escondeu as relações próximas que mantém há pelo menos uma década com figurões do PT e com a família Lula da Silva, particularmente com Lulinha. A investigação sobre o escândalo das aposentadorias do INSS revelou que essa proximidade avançou para uma parceria no mundo dos negócios. A Polícia Federal descobriu que ela e o primogênito atuavam juntos representando empresas e empresários que buscavam viabilizar contratos milionários no governo.

Ela captava os clientes, enquanto ele usava o nome e o acesso que tinha ao Palácio do Planalto para resolver as demandas mais sensíveis. Os dois usavam uma mansão em Brasília para promover reuniões com autoridades do primeiro escalão petista e festas que contavam com a participação de pessoas não muito recomendáveis. Mensagens encontradas no celular de Luchsinger resultaram em três inquéritos que apuram tráfico de influência de Lulinha. Na entrevista à CNN, ela disse que pretende revelar seus segredos:  “Eu quero fazer uma delação premiada, sabe por quê? Porque eu não tenho pai presidente, não tenho mãe presidente. Eu sou uma mulher com duas filhas e estou tendo uma máquina pública sendo movimentada em cima de mim”.

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