O jornal O Otimista denunciou que a Guarda Municipal de Fortaleza opera com um armamento que a própria Polícia Rodoviária Federal (PRF) já classificou como obsoleto e inseguro. Quase metade das armas utilizadas nas ruas pela corporação é formada por pistolas Taurus PT-100 doadas pelo Governo Elmano de Freitas (PT), modelo que, segundo documentação da PRF, apresenta desgaste, risco de falhas e possibilidade de disparos acidentais.
Conforme apurou O Otimista, a Prefeitura de Fortaleza recebeu do Governo do Estado 400 pistolas para equipar o efetivo da Guarda Municipal. O número corresponde a quase metade dos cerca de 829 armamentos utilizados pelos agentes nas ruas, segundo levantamento da reportagem. A doação, divulgada pela própria Prefeitura em maio de 2025, foi avaliada em R$ 340 mil e ocorreu por meio da Secretaria da Administração Penitenciária e Ressocialização (SAP). Além das 400 pistolas, o Estado também repassou 29 espingardas.
Fontes da Guarda Municipal ouvidas pelo O Otimista relataram que parte do armamento utilizado no patrulhamento apresenta sinais de desgaste e é considerado antigo. Histórico de falhas A situação das pistolas PT-100 não é uma questão nova. O Otimista teve acesso a um documento elaborado pela Polícia Rodoviária Federal, com selo do Ministério da Justiça e Segurança Pública, que detalha os problemas identificados no modelo antes de sua destinação à Guarda Municipal de Fortaleza.
Segundo o documento, algumas das unidades podem chegar a aproximadamente 30 anos de uso. A própria PRF registra que o desgaste provocado pelo tempo, pelo uso contínuo, pelas condições climáticas e pela evolução tecnológica tornou o modelo obsoleto diante dos armamentos disponíveis atualmente.
“Esse armamento atendeu perfeitamente aos propósitos da PRF, mas com o passar dos anos, devido ao desgaste natural decorrente do uso, do tipo de material empregado em sua fabricação, somado ao clima tropical brasileiro de altas temperaturas e umidade e ainda, ao grande avanço tecnológico da indústria armamentista, (…) deixaram esse modelo de armamento obsoleto frente aos ofertados pelo mercado atualmente”, diz trecho do relatório.
O problema vai além do desgaste. Entre os riscos apontados pela PRF está a possibilidade de disparo em caso de queda. O documento cita um acidente ocorrido durante o serviço, em 30 de setembro de 2016, que resultou na morte do policial rodoviário federal Ivanaldo Gomes Alves, no Maranhão.
“Conforme restou comprovado nos exames periciais realizados pela Polícia Federal (SEI nº 1048302 e 10034848), tanto no local quanto no armamento e munições, a arma do PRF disparou ao cair ao solo, sem sofrer nenhuma interferência para isso, fora a queda junto ao solo”, registra o documento.
O relatório também aponta que a própria fabricante alterou os manuais de utilização das armas e passou a incluir alertas sobre o risco de disparos acidentais provocados por quedas. Segundo a PRF, a orientação passou a constar inclusive nos manuais de armas que já haviam sido produzidas, sem que os clientes que já possuíam os equipamentos fossem formalmente comunicados.
“A empresa passou a inserir uma informação que ‘suas armas poderiam disparar acidentalmente em caso de queda’”, registra o documento. A PRF destaca que, anteriormente, os manuais indicavam justamente o contrário, ao informar que o sistema de segurança impediria disparos acidentais em caso de queda.
Diante dos problemas identificados, a PRF classificou as pistolas PT-100 como obsoletas, sujeitas a quebras e falhas de funcionamento em razão do desgaste das peças e da exposição às condições da atividade policial. O documento também aponta comprometimento das condições de segurança do modelo, especialmente diante do risco de disparos acidentais.
É esse armamento, retirado da utilização pela PRF e descrito em sua própria documentação como obsoleto e inseguro, que passou a integrar o arsenal utilizado diariamente por guardas municipais de Fortaleza nas ruas da Capital.






