Um investimento bilionário previsto para o Ceará segue travado pela demora do Governo Elmano de Freitas (PT) em liberar a licença prévia para a instalação de um novo data center no Estado. O projeto, avaliado em R$ 700 bilhões, pertence à Grand Réseau Holding Ltda, braço do grupo francês Qair, e está sendo desenvolvido em terreno próprio contíguo ao Porto do Pecém, em área da futura expansão da Zona de Processamento de Exportação (ZPE) do Ceará. Trata-se da primeira fase do empreendimento do chamado Projeto Grand Réseau.

O Otimista teve acesso exclusivo a um documento enviado à Prefeitura de São Gonçalo do Amarante e a órgãos do Governo do Ceará no qual a empresa relata dificuldades para obter a anuência da Companhia de Desenvolvimento do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP) necessária para dar seguimento ao projeto. A referida anuência foi solicitada há pouco mais de 200 dias. No entanto, segue pendente de emissão.

“Entendemos que a análise técnica de empreendimentos pela CIPP é complexa e demanda tempo. Entretanto, não podemos deixar de manifestar preocupação com a aparente falta de sinergia entre Prefeitura e órgãos do Governo do Estado do Ceará para viabilização de empreendimentos, notadamente quando tenham relevante impacto para o desenvolvimento do Estado. Esta preocupação não se limita ao presente projeto”, traz o documento assinado no último dia 19 de agosto.

A crítica recai sobre a articulação da gestão do governador Elmano de Freitas com a região para viabilizar investimentos com alto potencial para a geração de empregos e investimentos na área. A falta de “sinergia” pode levar ainda à perda de outros investimentos bilionários do Grupo Qair no Ceará: 16 projetos de sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS), somando 480 MW de capacidade.

Segundo a Qair, o empreendimento seria instalado em área da empresa dentro do perímetro administrado pela ZPE, no Porto do Pecém. Os projetos têm o objetivo de concorrer ao Leilão de Reserva de Capacidade de Armazenamento, com investimento total estimado de R$ 3 bilhões.

“Os prazos previstos para execução em obras referentes ao projeto de armazenamento BESS são exíguos e os cronogramas projetados não admitem prazos demasiadamente longos (como o enfrentado para licenciamento do Projeto Grand Réseau) para a fase de licenciamento ambiental”, traz o documento. No texto, a empresa ainda alega que a demora “inviabiliza por completo” o desenvolvimento de projetos que “demandem velocidade e otimização para a sua execução”.

Diante do impasse, a Qair propôs à Secretaria do Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb) de São Gonçalo do Amarante a realização de uma reunião conjunta com a CIPP e outros órgãos que a Prefeitura julgar pertinentes, com o objetivo de realinhar os procedimentos de licenciamento e destravar o projeto de data center e os futuros empreendimentos de armazenamento de energia da companhia no Ceará.

Data center pode mudar a economia cearense, mas burocracia põe em risco grandes investimentos

O empresário e economista Igor Lucena vê com preocupação a demora e a burocracia para a instalação de empreendimentos no Ceará, especialmente os de grande porte, como data centers. Segundo ele, com a reforma tributária, que acaba com a política de isenção fiscal para atrair investimentos, e a burocracia, o Estado pode ter dificuldades para reverter o cenário de desindustrialização e retomar o desenvolvimento.

Segundo Igor, no Brasil, o tempo médio para a liberação de uma licença prévia, como no caso de data center Grand Réseau, pode levar de seis a 12 meses. Em outros países, esse prazo é menor. “A gente está falando de 120 dias no Uruguai, 90 dias na Colômbia, 60 dias no México. Se a gente não repensar isso, a gente vai viver num estado do século XX enquanto todo mundo está vivendo no século XXI”.

Para o especialista, o cenário acende um alerta: o Ceará “já perdeu o hidrogênio verde”, inviabilizado pela nova política de exploração do petróleo do governo norte-americano, que tornou a transição energética “caríssima”. O hidrogênio verde foi anunciado pelas gestões de Camilo Santana (PT) e Elmano de Freitas (PT) como solução para a economia cearense, com investimentos de R$ 250 bilhões, mas nunca saiu do papel.

Igor afirma não acreditar no “futuro do hidrogênio verde durante o governo Trump”, mas vê potencial nos data centers. “Estamos falando de tecnologias futuras que, se tiver uma política correta de atração de investimentos, pode se tornar de fato um bom negócio, inclusive com salários mais altos. Até porque a renda média do cearense é muito baixa, é a terceira menor do Brasil e a gente precisa de empregos mais qualificados”.

Ele também destaca que os data centers podem atrair empresas de jogos, tecnologia, atividades digitais e desenvolvedoras de softwares, beneficiadas pela proximidade e menor latência. “Mas tem que ter uma política de perseguição ativa para atrair esses grandes negócios”, analisou.

Fonte: O Otimista

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