A segurança pública se consolidou como o principal desafio percebido pelos moradores de Fortaleza. Dados da pesquisa Viver em Fortaleza: Qualidade de Vida 2026 mostram que 61% da população apontam a falta de segurança como o maior problema da cidade, percepção que é ainda mais elevada entre os homens (69%) do que entre as mulheres (55%). O sentimento de insegurança também atravessa todas as faixas etárias, atingindo 62% entre jovens de 16 a 34 anos, 63% entre pessoas de 35 a 44 anos e 60% entre aqueles com 45 anos ou mais.

Apesar do peso da insegurança, a avaliação sobre a qualidade de vida apresenta nuances. Para 41% dos entrevistados, houve melhora no último ano, enquanto 35% consideram que a situação permaneceu estável. Já 23% avaliam que as condições pioraram. Embora haja percepção de avanços pontuais, eles ainda não são suficientes para neutralizar a sensação de vulnerabilidade que marca o cotidiano de parte significativa da população: 58% dos moradores disseram que sairiam da cidade se pudessem

Falta de segurança

Ao serem questionados sobre quais políticas públicas deveriam ser priorizadas, os moradores apontam de forma clara a necessidade de reforço na segurança. Entre as principais demandas estão o aumento do policiamento comunitário, a melhoria da iluminação pública e a ampliação de ações preventivas contra a violência. A preferência por medidas preventivas e de proximidade sugere que a população não busca apenas respostas repressivas, mas também estratégias que impactem diretamente a sensação de segurança nos bairros.

Para o sociólogo Luiz Fábio Paiva, coordenador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV) da UFC, o impacto da violência vai além dos números e se traduz em experiências subjetivas profundas. “A violência urbana tem como efeito produzir trauma. E esse trauma, quando se repete em larga escala, pode se transformar em um trauma coletivo, fazendo com que as pessoas passem a viver com medo”, afirma.

Cotidiano de insegurança

Segundo ele, a percepção de insegurança nem sempre acompanha exatamente os índices de criminalidade, mas é construída a partir da repetição de episódios e da forma como essas experiências circulam socialmente. “Podemos ter cenários com menos crimes, mas com uma sensação de medo muito maior. Isso envolve percepção, experiências acumuladas e a maneira como a violência afeta o cotidiano”, explica.

Esse contexto ajuda a entender outro dado relevante da pesquisa de que mais da metade dos moradores afirmam que deixariam Fortaleza se tivessem oportunidade.

A decisão de permanecer ou sair da cidade, segundo especialistas, passa diretamente pela sensação de segurança. “A violência influencia a convivência e o morar. As pessoas buscam condomínios fechados, evitam determinados espaços ou até migram para cidades que consideram mais seguras”, observa o sociólogo César Barreira, professor titular da UFC e fundador do LEV.

O custo social da violência

O impacto da insegurança se reflete também na reorganização da vida. Barreiras físicas, como muros e câmeras, e mudanças de comportamento, como evitar determinados horários ou locais, atravessam a rotina. “A gente passa a gastar mais, a se proteger mais, a mudar hábitos. A violência altera a forma como a sociedade vive e utiliza a cidade”, destaca Luiz Fábio Paiva.

Para César Barreira, esse movimento revela que a segurança pública não é apenas uma questão de estatística, mas um fator estruturante. “A proteção é um elemento central para a organização da vida em sociedade. Garantir segurança é garantir condições básicas para uma boa convivência urbana”, afirma.

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