A cúpula da Cooperativa de Atendimento Pré-Hospitalar (Coaph) foi alvo, na última quinta-feira (8), da Operação Coaptação, deflagrada pela Polícia Federal (PF) em parceria com a Controladoria-Geral da União (CGU). A investigação apura suspeitas de desvios de R$ 1 bilhão em recursos destinados à saúde no Ceará. A cooperativa é apontada como o principal núcleo do esquema.
Segundo os investigadores, foram identificados “vários esquemas dentro da Coaph”, com a participação de dirigentes. “A estrutura identificada sugere um conglomerado de mais de 80 empresas fictícias, muitas ainda não plenamente identificadas nesta investigação, geridas ou controladas — direta ou indiretamente — pela cúpula da cooperativa e por seus operadores financeiros”, afirma o documento que embasou o cumprimento de 24 mandados de busca e apreensão, cinco de prisão e dois de sequestro de veículos.
Entre os alvos dos mandados de prisão e de busca e apreensão estão Lúcio Barbosa Domingos, coordenador financeiro da Coaph, e José Newton Lacerda Carneiro, fundador, ex-presidente e atual tesoureiro da cooperativa. O atual presidente da Coaph, Montezuma Feitosa Alexandrino, foi alvo de mandado de busca e apreensão. Segundo a PF, ele teria “orquestrado esquema para o desvio de R$ 165 milhões”.
Newton mantém vínculos societários com mais de 100 empresas de diferentes segmentos, incluindo cooperativas, holdings patrimoniais e consultorias, além de negócios nos setores de alimentação, vestuário e parques infantis. Ele chegou a ser preso na quinta-feira, em um dos endereços ligados a ele, em um condomínio de luxo no Eusébio, segundo apuração.
Até dezembro de 2024, Francisco Furtado ocupava o cargo de diretor técnico da Coaph. Em 6 de dezembro daquele ano, ele se casou com a filha do atual prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão (PT). Quando o petista assumiu a Prefeitura, Furtado deixou a diretoria e passou a atuar como funcionário da cooperativa. A mudança teria ocorrido para evitar questionamentos judiciais relacionados aos repasses da Prefeitura de Fortaleza à Coaph, agora administrada por um familiar de sua esposa.
Após Evandro Leitão assumir a Prefeitura, porém, os repasses à Coaph aumentaram tanto na esfera municipal quanto na estadual. Entre 2018 e 2026, a cooperativa recebeu cerca de R$ 980 milhões da Prefeitura de Fortaleza e do Governo do Ceará. Desse total, R$ 686.309.454,04, o equivalente a aproximadamente 70%, foram pagos em 2025 e 2026. Em 2024, a Prefeitura de Fortaleza pagou cerca de R$ 40 milhões à cooperativa.
Em 2025, primeiro ano da gestão de Evandro Leitão, o valor subiu para R$ 76,3 milhões. “Se você olhar, ele era diretor técnico. Quando Evandro virou prefeito, para ele não ser diretor e atrapalhar a contratação, ele saiu de diretor e virou funcionário. Mas quem pilota e quem comanda é ele”, detalhou um representante do Sindicato dos Trabalhadores no Serviço de Saúde (Sindsaúde). Já Ciro Gomes, presidente do PSDB no Ceará, classificou Francisco Furtado como “o verdadeiro dono” da cooperativa.
Polícia Federal
Além de Francisco Furtado, outro genro de um ex-prefeito chamou a atenção dos investigadores. José Reimilson Pontes Cruz, proprietário da Drive Car, revendedora de carros de luxo, teve veículos apreendidos durante a operação. Endereços ligados a ele também foram alvos de mandados de busca e apreensão
Cruz é genro de um ex-prefeito de Tururu e é apontado pela investigação como um dos envolvidos no suposto esquema de lavagem de dinheiro por meio da compra e venda de veículos de luxo. A lista de veículos apreendidos inclui uma McLaren Artura, um Chevrolet Corvette, um Toyota Corolla, um Jeep Commander, uma Honda HR-V, uma Denza B5, um BYD Dolphin Mini, um Mini Cooper e duas Ford Ranger.
A McLaren, modelo 2025/2026, é avaliada entre R$ 2,65 milhões e R$ 3,2 milhões, enquanto o Corvette pode chegar a R$ 2,5 milhões. Os genros do ex-deputado federal e ex-prefeito de Juazeiro do Norte Arnon Bezerra também foram citados na operação. Segundo os investigadores, parte dos beneficiários dos repasses pode atuar como intermediária de outros atores políticos, ocultando os verdadeiros destinatários dos recursos.
Nota da Coaph
Em nota enviada à imprensa, a Coaph disse que a operação da Polícia Federal não teve a cooperativa como único alvo e lembrou que a instituição foi submetida a uma “fiscalização semelhante” em 2022, posteriormente arquivada, segundo a empresa. A cooperativa declarou que “respeita o trabalho das autoridades” e ressaltou que “preservar uma instituição que presta serviços essenciais à saúde também é uma questão de responsabilidade”. Por fim, reafirmou seu compromisso com a “legalidade, transparência e colaboração com as autoridades”.






