A Polícia Federal apreendeu cinco celulares que pertencem ao controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, que podem conter dados que impliquem autoridades públicas e pessoas ligadas ao Judiciário em crimes, segundo apurou a Gazeta do Povo. Mas os aparelhos estão entre as provas retiradas da custodia da polícia por ordem do ministro do STF, Dias Toffoli. A decisão dele pode comprometer a conexão de provas contidas nesses equipamentos eletrônicos com o que já foi apurado da operação de novembro e comprometer novos depoimentos.
A segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada no último dia 14, cumpriu 42 mandados de busca e resultou na apreensão de 39 celulares, dos quais cinco pertencem a Vorcaro, o principal alvo das investigações.
Um celular usado por ele já havia sido apreendido na primeira fase da operação, em novembro passado. O aparelho já era considerado uma bomba reveladora. Segundo investigadores, a retirada dos novos aparelhos da guarda da Polícia Federal e seu encaminhamento à Procuradoria-Geral da República (PGR) determinada pelo ministro Dias Toffoli, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), pode atrasar a apuração e, em tese, favorecer suspeitos.
Isso porque Toffoli também escolheu quatro peritos de sua preferência para extrair os dados dos aparelhos. A manobra é vista por analistas como uma possível forma de atrasar a análise do conteúdo dos celulares para que os investigados sejam interrogados antes que a polícia tenha acesso a todas as evidências contra eles. Vorcaro deve prestar depoimento já no dia 27 de janeiro.
Toffoli foi questionado pela reportagem e não se manifestou sobre os celulares e o destino das provas apreendidas até o momento. Ele alegou nos autos que ao levar o inquérito para o Supremo e retirar da Polícia Federal a custódia direta das provas visava preservar a integridade do material apreendido, evitar riscos de inutilização ou descaracterização das provas e garantir o controle judicial sobre uma investigação que, segundo ele, tem escopo mais amplo e envolve indícios de gestão fraudulenta, desvio de recursos e lavagem de dinheiro
Assim, segundo o ministro, caberia ao Ministério Público, especialmente à Procuradoria-Geral da República (PGR), a formação da convicção sobre a materialidade e a autoria dos crimes, já que o caso envolveria autoridades com foro privilegiado e demandaria supervisão direta do STF para assegurar a legalidade, a eficácia das diligências e a adequada condução do processo sob sigilo máximo.
O caso chegou ao STF após pedido da defesa de Vorcaro, sob alegação de foro privilegiado, após o surgimento de um nome de deputado federal da Bahia nas investigações ainda em novembro. O processo passou então a ser relatado por Toffoli, cuja parcialidade começou a ser questionada após vir a público o fato dele ter viajado em um jato particular com um dos advogados do Master para assistir à partida de futebol final da Copa Libertadores da América no Peru em novembro de 2025.
Toffoli determinou a centralização do inquérito e a imposição de sigilo ampliado. Essas decisões geraram questionamentos sobre transparência e possíveis conflitos de interesse por supostos envolvimentos de pessoas próximas de magistrados em negócios ou prestações de serviços ao Master.
Analistas alertam para uma possível blindagem em conexões indiretas. Há indícios de ligação entre fundos ligados à instituição controlada por Daniel Vorcaro e empresas que tiveram participação de familiares do ministro Dias Toffoli, por meio de uma cadeia de investimentos investigada pela PF.
Movimentações indicariam aportes milionários em empreendimentos no Paraná, incluindo um resort, com participação de um cunhado de Vorcaro, embora as defesas neguem vínculo direto do banqueiro e familiares do magistrado.
No decorrer das investigações também se gerou suspeitas sobre a relação entre o banco e o escritório de advocacia Barci de Moraes, no qual atua Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes, a partir de um contrato milionário firmado no fim de 2024 para a defesa dos interesses da instituição no Banco Central, com a Receita Federal e no Congresso Nacional.
O acordo, que previa pagamentos elevados ao longo de três anos, motivou questionamentos entre parlamentares e juristas sobre um possível conflito de interesses e tráfico de influência, embora investigações não tenham identificado até o momento registros concretos de atuação do escritório nos órgãos citados.
Alexandre de Moraes negou qualquer interferência ou participação no caso, afirmando que jamais tratou de assuntos do Banco Master com autoridades federais. Apurações mais recentes indicam que, apesar da existência do contrato, não haveria evidências de envolvimento da advogada ou do escritório nas supostas fraudes financeiras investigadas.
Contudo, para analistas, o sigilo quase absoluto e o acesso altamente restrito às provas, além da instauração de um inquérito por determinação de Moraes para investigar possíveis vazamentos de informações no Coaf e na Receita Federal envolvendo magistrados e familiares, podem revelar uma possível cadeia de proteção. “Sobretudo depois que nomes de pessoas ligadas aos ministros passaram a aparecer no caso”, alerta o constitucionalista André Marsiglia.






