O jornal O Otimista apresentou matéria que aponta avanço das facções criminosas no Ceará tem impactado diretamente a rotina da população, impondo medo, restringindo a circulação em determinados bairros e afetando até serviços básicos. Em meio a esse cenário, o governo de Elmano de Freitas (PT) ainda não apresentou uma política de segurança pública que represente uma ruptura clara com o que já vinha sendo feito.
A gestão tem reforçado ações operacionais e ampliado estruturas existentes, mas, na avaliação de especialistas, carece de uma estratégia inovadora capaz de responder à complexidade atual da violência e à expansão do crime organizado no Estado. O contraste com gestões anteriores reforça essa percepção.
No governo Cid Gomes, hoje senador pelo PSB, a criação do Ronda do Quarteirão simbolizou uma mudança de abordagem ao priorizar o policiamento comunitário. Já na administração de Camilo Santana (PT), que destruiu a lógica do modelo adotado pelo seu antecessor, a exploração do Batalhão Raio foi a ação mais visível.
No caso de Elmano, até agora, não se identifica uma política estruturante com o mesmo grau de novidade ou impacto, o que levanta questionamentos sobre a capacidade da atual gestão de apresentar uma alternativa capaz de enfrentar um problema que só se agravou nos últimos anos.
Enquanto isso, os efeitos dessa ausência de inovação são sentidos no cotidiano dos cearenses. Moradores convivem com disputas territoriais, comerciantes enfrentam extorsões e comunidades inteiras vivem sob regras impostas por grupos criminosos. Em outros casos, há expulsão de famílias em várias regiões do Estado, no interior e na Capital.
Críticas
Para o advogado e consultor em segurança pública Laécio Noronha Xavier, não há inovação ou estratégia para enfrentamento do crime organizado, apesar do avanço na implementação de recursos para a área. “Não houve apresentação de nenhuma inovação de segurança, nada concreto, a não ser o sistema de metas, em que se faz uma premiação balizada de ano a ano. Ou seja, o projeto de metas é um projeto de econometria de tempo”, pontuou.
Segundo Laécio, o governo Elmano, ao invés de “fazer mais com menos”, obtém menos resultados mesmo gastando mais. “Inédito foi ter desmontado o Conselho Estadual de Segurança Pública, desmontado o Plano Ceará Pacífico, que foi feito pelo antecessor. Não há nada de novidade que permita dizer que vamos conseguir vencer esse jogo (combate à criminalidade) com um governo fazendo o trivial”, afirmou.
Segundo o consultor em segurança pública, desde 2007, ano do primeiro governo de Cid Gomes, há uma política em que governantes sucessores desmontam ações implementadas anteriormente no intuito de imprimir uma “marca própria” para a área.
“O Ronda do Quarteirão, na verdade, não era polícia comunitária, era radiopatrulhamento. Era a grande solução à época, mas foi desmontado por Camilo. Depois, veio a vez do Raio e do plano ‘Ceará Pacífico’. Aí chega o Elmano e diz: ‘não, agora nós vamos com a reestruturação, com o sistema de metas’, e acaba com o Ceará Pacífico. Não dá importância ao Raio, que perde força”, relembrou.
Na avaliação do especialista, uma das principais iniciativas recentes do governo no segmento – a ampliação das Áreas Integradas de Segurança – não representa, de fato, uma inovação estrutural. Segundo ele, o aumento do número dessas zonas, que passaram de 15 para até 25, carece de um critério técnico unificado.
Noronha critica o que chama de “fragmentação cartográfica”, ao afirmar que cada secretaria do estado acaba definindo seu próprio recorte territorial.
“Não é assim que se faz cartografia de secretaria estatal. É preciso haver uma cartografia única para todas as políticas do Estado”, aponta, destacando que a ausência de padronização compromete a efetividade das ações e dificulta a integração entre diferentes setores da gestão pública.
Falta de estratégia na segurança pública é alvo de críticas de especialistas e oposição
Para o especialista Laécio Noronha, o problema revela uma falha mais profunda na condução da segurança pública: a inexistência de uma estratégia de longo prazo. Ele argumenta que, sem planejamento consistente, cada governo tenta imprimir sua própria marca, desmontando iniciativas anteriores sem consolidar avanços duradouros.
“De inédito mesmo, não há nada”, afirma, ao destacar que esse modelo acaba penalizando principalmente a população mais vulnerável, o setor produtivo e regiões com menor presença do Estado. O resultado, segundo ele, é um cenário em que há aumento de gastos públicos, mas também avanço das facções criminosas, impulsionado pelo excesso de experimentalismo e por medidas consideradas superficiais diante da complexidade do problema.
Por meio de nota, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) informou que os investimentos recentes na área têm refletido em queda nos índices de criminalidade. Segundo a pasta, o Estado registrou redução de 35,3% nos Crimes Violentos Letais e Intencionais (CVLIs) no primeiro trimestre de 2026, além de uma diminuição de 44,9% em março.
De acordo com a SSPDS, os resultados estão ligados a ações estruturais como a entrega de 1.366 viaturas, 4.826 armas e 18.671 coletes balísticos, além da contratação de 3.205 profissionais e formação de mais 2,6 mil agentes. A pasta destaca ainda a criação de novas delegacias, reestruturação das forças com foco no combate ao crime organizado. “Os investimentos e ações integradas têm fortalecido o enfrentamento à criminalidade”, afirma a SSPDS.
Reação
Apesar disso, a área da segurança pública segue como um dos principais pontos de crítica de membros da oposição ao governo Elmano de Freitas. O ex-ministro e pré-candidato ao Palácio da Abolição, Ciro Gomes (PSDB), destacou, em inúmeras ocasiões, que pretende solucionar problemas relacionados à segurança pública.
O tucano pontua que irá construir diretrizes para romper “a questão da violência, da segurança e do enfrentamento das facções criminosas”, ressaltando que o Ceará atualmente é dominado por grupos criminosos e pelo crime organizado.
O deputado estadual licenciado Sargento Reginauro (PSDB), por sua vez, disse que o governo Elmano não teve uma marca nestes quatro anos de administração, sobretudo na questão da segurança pública. O parlamentar também direcionou críticas ao ex-ministro e ex-governador do Estado Camilo Santana (PT), a quem atribui a responsabilidade pelo “caos na segurança pública” que o Ceará vivencia.
O pré-candidato ao Senado, General Guilherme Theophilo (Novo), afirmou, em entrevista recente ao O Otimista, que o Ceará está “totalmente entregue às facções criminosas”. Em uma avaliação dos governos Camilo e Elmano, o pré-candidato ao Senado afirmou que o ex-ministro da Educação é a “origem” da problemática da segurança pública.
“Acho que quem fez menos foi o Camilo, porque ele é a origem de tudo isso. Ele é a origem dessa insegurança pública que nós temos. Por causa dessa conivência dele com o crime, essa proximidade, não cumprimento das leis, não respaldo à PM”, ponderou.
Recentemente, o deputado federal e presidente estadual do PL no Ceará, André Fernandes, realizou uma ação de remoção de pichações de facções criminosas na comunidade Jardim Castelão, em Fortaleza.
Durante o ato, o parlamentar criticou duramente a gestão da segurança pública, afirmando que o Ceará enfrenta um cenário de “crime tomando conta, a população com medo e o governo sem fazer absolutamente nada”, classificando a situação como um “terror psicológico”.
Sargento Borges, da Associação das Praças Militares do Estado do Ceará (Aspra), afirmou que um avanço importante que poderia se antecipar no Ceará é a PEC 18. “Dá o respaldo para as polícias militares e municipais lavrarem o TCO, proporcionando mais economia para o Estado e um efetivo mais presente na rua”, explicou.
“Não iria ter a necessidade de ficar nas delegacias esperando que os delegados cumprissem esse papel. Obviamente, havendo a necessidade de qualificação, investimento na tecnologia devida e, em contrapartida, juntamente com a responsabilidade adquirida pelos policiais militares, a devida valorização”, acrescentou.
Ele ressaltou que o avanço das facções criminosas não é um problema novo, com organizações criminosas vindo de São Paulo e do Rio de Janeiro para o Estado. “O que elas devem ter percebido foi a fragilidade, tanto das forças de segurança, como a falta de integração do Poder Executivo, Ministério Público e Judiciário, em que necessariamente agora está sendo dada a devida importância com alguns investimentos, seja na parte de armamentos, equipamentos, tecnologia e aumento de efetivo”, disse.







