Todos os dias famílias são flagradas diariamente coletando alimentos no lixo descartado por um supermercado em Fortaleza. Todos os dias, no horário do almoço, o caminhão de coleta estaciona, e parte do conteúdo dos tambores transportados do estabelecimento ao veículo é interceptada por homens e mulheres em busca de frutas, legumes, cereais e até restos de carnes que possam reaproveitar.

As cenas, nas quais aparecem até crianças de colo, foram registradas em vídeo por moradores.

Na sexta-feira (27), a reportagem esteve no local e constatou a situação. “Todo dia eles trazem e a gente pega pra comer. Vem pão, verdura, às vezes arroz. Ando aqui faz é tempo”, narra Maria (nome fictício), 51, enquanto divide com um homem em situação de rua as carcaças e peles de frango, ignorando as incontáveis moscas que orbitam o conteúdo.

Naquele dia, ela levaria para casa, além da ossada, um saco com dezenas de pães carioquinhas, tão grande que dividiria com vizinhos. Segundo a dona de casa, já são “mais de 20 anos” percorrendo mercantis em busca das sobras para complementar a feira.

“Esse alimento aqui me ajuda e muito, é muito importante. Eu recebo Bolsa Família, mas vai todo pro aluguel”, explica a mulher, que afirma não conseguir mais emprego desde que iniciou um tratamento de câncer de colo de útero.

Antes, ela trabalhava como auxiliar de cozinha, ofício que a ensinou a aproveitar o máximo dos alimentos. “Essas ‘carnezinhas’ eu boto no feijão, levo pra minha mãe também. E a gente também bota pro cachorro. Não vou mentir: vivo disso aqui. Não tenho vergonha de dizer não. Criei meus cinco filhos sozinha, aproveitando essas comidas”, sentencia.

Maria diz que, assim como ela, diversas pessoas da comunidade onde mora, perto do supermercado, utilizam os alimentos reaproveitados, ainda que sob protesto da gerência do estabelecimento. “Ele sempre diz que, se estiver podre, a gente não pegue, pra não ficar doente. Mas nunca ficamos”, garante a mulher.

Segundo ela, a comunidade conta com uma das cozinhas solidárias do programa Ceará Sem Fome, do Governo do Estado, mas “tem fila grande” e ela “prefere deixar a vaga pra quem precisa mais”.

Fonte: DN

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