Depois de anos em que galpões lotados e linhas de produção aceleradas simbolizavam desenvolvimento e interiorização da indústria, o polo calçadista cearense agora acumula sinais claros de esvaziamento. O que já foi vitrine de uma política industrial consistente e descentralizada transformou-se em um cenário de retração, perda de competitividade e insegurança. Formado por pouco mais de 200 empresas entre fábricas de calçados, solas, colas e distribuidoras de insumos, o setor, que sustentou milhares de empregos formais e impulsionou economias locais, hoje enfrenta encolhimento, reestruturações e migração de investimentos para outros estados.
Implantadas nos governos de Tasso Jereissati e Ciro Gomes, as indústrias calçadistas chegaram a gerar dezenas de milhares de postos de trabalho diretos em todo o Ceará. O modelo de atração de investimentos transformou municípios do interior em polos industriais dinâmicos. Contudo, ao longo dos últimos anos, inconsistências na política de incentivos, mudanças de critérios acabaram gerando desconfiança no setor, desencadeando uma fuga em massa de fábricas.
Cidades como Quixeramobim, Sobral, Senador Pompeu, Santa Quitéria, Russas, Quixadá, Maranguape e Iguatu tiveram suas economias profundamente impactadas pela cadeia produtiva do calçado. O comércio local se expandiu, novos serviços surgiram e a arrecadação municipal ganhou fôlego com a formalização do emprego. Hoje, segundo empresários e representantes do setor, boa parte do contingente fabril foi reduzido, terceirizado ou simplesmente transferido para outras unidades da federação como Sergipe e Bahia, deixando como consequência desemprego, retração no consumo e falta de perspectiva.
Dados da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), com base no IBGE e no Ministério do Trabalho, revelam queda no número de estabelecimentos no Ceará: de 312 unidades em 2014 para 223 em 2024. Em uma década, 89 plantas industriais deixaram de operar no Estado.







