O desmatamento no Ceará registrou um aumento de 23,5% em 2024, em comparação ao ano anterior. Os dados são do Mapbiomas Alertas, iniciativa que compila os eventos de desmatamento detectados no Brasil e foram divulgados em maio de 2025. Ao todo, foram 40.108 hectares (ha) desflorestados no ano passado, fazendo com que o Estado saltasse de 12ª, em 2023, para 9ª unidade federativa que mais desmata no Brasil.
Os municípios de Acopiara (2.160,46 ha), Mombaça (1.844,22 ha), Jucás (1.422,69 ha), Araripe (1.252,46 ha) e Mauriti (1.085,59 ha) se destacam como as cidades cearenses com maior quantidade de hectares desmatados em 2024. A média diária de desmatamento em 2024 foi de 119,5 ha no Ceará.
O Ceará também notificou um aumento de 66,6% no número de alertas de desmatamento, quando comparado a 2023, tornando-se o 4º estado brasileiro com maior número de alertas em 2024. Juntos, os estados do Pará, Acre, Bahia, Ceará e Amazonas, representam mais de 60% de todos os alertas detectados no ano, que equivalem a 36% da área desmatada no Brasil, conforme o relatório.
Quando o assunto é fiscalização, dos 125.971 hectares desmatados no Ceará até dezembro de 2024, apenas 22,48% das áreas com alertas de desmatamento notificadas apresentaram algum tipo de autorização (18.721 ha) ou ação de fiscalização (11.444 ha), conforme o Monitor de Fiscalização do Mapbiomas.
Essa também foi a primeira vez, desde 2019, que a Caatinga, bioma no qual o Ceará está 100% inserido, registrou o maior evento de desmatamento detectado no Brasil, com 13.628 ha desflorestados. O número representa um aumento de 188,1% em relação a 2023, cujo maior desmatamento registrado na unidade biológica foi de 4.730 ha.
O professor titular e pesquisador da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Washington Rocha, que também coordena a Equipe Caatinga do Mapbiomas, analisa como preocupante os eventos em que uma área excessiva de desmatamento é autorizada.
Ele destaca que quando é verificada a quantidade de áreas desmatadas com o que há autorização registrada, é possível apontar desmatamento ilegal. “Isso é preocupante principalmente se você estiver em localizações em zonas de pressão, próximo à área de proteção natural, áreas de preservação, áreas de proteção, núcleos de desertificação”, explica o professor.
A Caatinga também foi o bioma com o menor percentual da área de desmatamento autorizado ou fiscalizado (23,6%). O percentual do número de alertas com autorizações ou ações de fiscalização também se diferencia dos demais biomas, alcançando apenas 5,8%.
“A legislação na Caatinga é mais permissiva que nos outros biomas”, avalia Diêgo Costa, pesquisador do programa de Pós-Graduação em Modelagem em Ciências da Terra e do Ambiente da Uefs.
“Por exemplo, a gente permite fazer um plano de manejo com corte raso, coisa que em outros biomas não permite (…) a quantidade de reserva legal que você tem que ter dentro da propriedade é menor do que na Amazônia, por exemplo, e possivelmente menor do que no Cerrado. O próprio percentual de áreas protegidas no bioma comparativamente é menor em relação a outros biomas”, completa.
O aumento observado no território estadual vai na contramão dos dados gerais do desmatamento no Brasil, que registraram uma queda de 32,4% em área desmatada e 26,9% sobre os alertas de desmatamento, em 2024. Considerando todos os territórios contemplados pela Caatinga, a queda observada para o desmatamento no bioma foi de 13,4%.
“Embora o desmatamento na Caatinga tenha reduzido em 13,4% quando comparado ao ano de 2023, isso ainda incorre na perda de aproximadamente 174 mil hectares em um bioma que já perdeu mais de 40% de sua vegetação original. Os estados do Ceará e Piauí aumentaram suas áreas desmatadas (…)”, pondera Marília Nascimento, gerente de Programas Socioambientais da Associação Caatinga.
A relação entre o processo de desmatamento e a desertificação na Caatinga também é alertado por ela. “A Caatinga tem apenas cerca de 9% do seu território protegido por Unidades de Conservação, destes apenas 2% são de proteção integral. Esse dado por si só, nos alerta sobre a necessidade de ampliar o tamanho das áreas legalmente protegidas, considerando que o bioma já perdeu aproximadamente 47% de sua vegetação original e 13% está em estágio avançado de desertificação”.
Fonte: O Povo







