Evandro Leitão (PT), então presidente da Assembleia Legislativa do Ceará e candidato à Prefeitura de Fortaleza, foi procurado pelo prefeito cassado de Choró, Bebeto Queiroz (PSB), para interceder junto ao comandante do 4º Batalhão da Polícia Militar, coronel Acácio, com o objetivo de “abrir as portas e suavizar a atuação da Polícia Militar na região, para não ‘acocharem’”, especialmente em favor de familiares e aliados.
A informação consta no relatório final da Polícia Federal (PF), enviado ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, no âmbito da Operação Underhand, que investiga uma organização criminosa suspeita de envolvimento em lavagem de dinheiro, compra de votos, fraude em licitações e falsidade ideológica.
“Não vou ficar aqui em Canindé sendo perseguido pela polícia, minha irmã perseguida e todos os meus amigos. Diga ao meu amigo Evandro Leitão: se ele tiver consideração por mim e força para resolver isso, eu preciso que ele resolva”, afirmou Bebeto em mensagem enviada ao contato identificado como “Tibério Evandro”, em 21 de setembro de 2024, em celular posteriormente apreendido pela PF.
Segundo os investigadores, o contato deve se referir a Tibério César Burlamaqui, então chefe de gabinete da Assembleia Legislativa durante a presidência de Evandro Leitão (2021–2024) e atual coordenador de Articulação Política da Prefeitura de Fortaleza.
Em troca de mensagens, Bebeto solicita “um acesso para abrir as portas” e conversar com o comandante do batalhão “para não acochar”. “Ok”, responde Tibério. As mensagens foram trocadas na reta final do período eleitoral de 2024.
De acordo com o relatório, em seguida Bebeto envia o contato telefônico do coronel Acácio e informa já ter falado com Evandro Leitão, agradecendo pela intermediação. “Obrigado, meu amigo Tibério, pelo apoio de ontem. Falei com o Evandro Leitão já, amanhã nós vamos almoçar juntos. Obrigado por tudo, meus amigos”, escreveu, em 22 de setembro de 2024.
A PF afirma que há registros adicionais que indicam não apenas contato direto entre Bebeto e Evandro, mas também a recorrência dessa interlocução. Mensagens extraídas do celular mostram menções a encontros pessoais, reuniões em Fortaleza e fotos que comprovariam a proximidade entre os dois.
Entre os registros, há imagens em que Evandro aparece ao lado de Bebeto, da irmã dele, Cleidiane Queiroz, e do deputado federal Júnior Mano (PSB). Para os investigadores, esse material reforça a credibilidade das mensagens em que Bebeto afirma ter acionado diretamente o então presidente da Assembleia para interferir na atuação policial em Canindé.
Segundo a Polícia Federal, “o conjunto de elementos comprova a existência de tentativa deliberada de instrumentalizar agentes públicos e lideranças políticas de alto escalão para proteger interesses do grupo criminoso em momentos de tensão”. Ainda conforme o relatório, a tentativa de reduzir a atuação da Polícia Militar durante o período eleitoral evidencia o grau de articulação da organização e reforça indícios de aparelhamento institucional.
A investigação aponta ainda que Bebeto negociava com supostos agentes da Polícia Militar, da Polícia Rodoviária Estadual e da Polícia Rodoviária Federal o afastamento de policiais de municípios onde a organização atuava durante as eleições.
O grupo, segundo a PF, operava no desvio de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares, utilizando empresas de fachada e fraudes em licitações para financiar compra de votos, pagamentos a veículos de imprensa e lavagem de dinheiro. A organização também decidia quais candidatos apoiar com base em pesquisas eleitorais.
Projeto Fortaleza
Em conversas com o empresário José Hamilton Chagas Saldanha, ligado a empresas que somam mais de R$ 1,6 milhão em 96 contratos com prefeituras, Bebeto compartilha pesquisas eleitorais de Paracuru, Choró, Canindé e do chamado “Projeto Fortaleza”. A última foi realizada no fim de setembro de 2024, dias após o pedido para suavizar a atuação policial.
O diálogo inclui a expressão “Consolidado André e Evandro”, o que, segundo a PF, indica que as pesquisas funcionavam como instrumentos estratégicos para definição de alianças, distribuição de recursos e articulação política.
Foragido
Bebeto Queiroz foi reeleito prefeito de Choró em 2024, mas não chegou a tomar posse. Ele está foragido desde dezembro daquele ano. Chegou a ser preso temporariamente em operação do Ministério Público do Ceará, mas foi solto dias depois.
Ele segue filiado ao PSB, presidido no Ceará por Eudoro Santana, pai do senador Camilo Santana (PT).
O presidente do União Progressista no Ceará, Capitão Wagner, lançou um site para receber denúncias sobre o paradeiro de Bebeto, oferecendo recompensa de R$ 20 mil por informações que levem à sua prisão.
Segundo Wagner, há registros de passagem do ex-prefeito por cidades como Canindé, Juazeiro do Norte e Choró. Atualmente, no entanto, ele estaria fora do Ceará.





