“Neto e filho de agricultor”. É assim que o governador Elmano de Freitas, do Partido dos Trabalhadores, se apresenta ao eleitorado cearense para disputar o segundo mandato à frente do Palácio da Abolição. A propriedade da família, no entanto, revela uma dimensão que vai muito além da imagem sugerida pela expressão. Em visita às terras, O Otimista encontrou um latifúndio de 1.812 hectares, avaliado em cerca de R$ 25 milhões por um corretor de imóveis que preferiu não se identificar.
A dimensão da propriedade fica mais evidente quando comparada a referências conhecidas. Com mais de 1.800 hectares, a área é maior que a soma de 32 bairros de Fortaleza, incluindo Montese, Maraponga, Centro, Varjota, Jacarecanga, Dionísio Torres e Bela Vista. O território também supera o de quatro municípios brasileiros, entre eles São Caetano do Sul, que tem população de 162 mil habitantes.
As dimensões da propriedade, porém, não são o único aspecto que chama atenção. A fazenda ainda está registrada em nome de Francisco Feitosa da Costa (pai de Elmano, falecido em 30 de julho de 2022), no 2º Cartório de Registro de Imóveis de Canindé, como Fazenda “Furnas”. A propriedade está na família desde 5 de abril de 1978. A maior parte da extensão fica em Canindé, mas a fazenda também se estende por Mulungu e Baturité.
É justamente a partir de Baturité que se chega à fazenda. O acesso é por uma estrada íngreme de calçamento, com trechos de difícil passagem devido aos problemas estruturais da via. Segundo moradores, o percurso para a Fazenda Furnas e outras propriedades da área não recebe manutenção frequente dos governos estadual ou municipal.
“Quando é tempo de política eles botam a máquina para passar terrinha no buraco. Passou a política é quatro anos na desgraça”, disparou Maria Eduarda, nome fictício de uma moradora da área, que não quis se identificar por medo de represálias. Segundo ela, a falta de manutenção na estrada é um dos principais problemas, pois dificulta a locomoção na região para quem não tem veículo próprio.
As dificuldades, de acordo com Maria, não se limitam ao deslocamento. Ela conta que a área não tem posto de saúde próximo e, quando há casos de enfermidade, os moradores precisam recorrer a ambulâncias de Baturité, que utilizam a estrada para levar os pacientes, ou à boa vontade de pessoas com mais recursos para fazer o transporte até a unidade básica na cidade.
Na rotina das famílias, outras limitações fazem parte do cotidiano. As casas têm energia elétrica, mas não dispõem de água encanada. Para abastecer as residências, os moradores precisam retirar água “da cacimba” para consumo e outros usos, incluindo higiene pessoal. Boa parte das residências é de taipa e, em alguns casos, foi levantada pelos próprios moradores na terra de seus respectivos patrões.
É nesse cenário que a relação dos moradores com a família de Elmano aparece também no contexto eleitoral. Questionada sobre a expectativa para as eleições de 2026 e se o governador havia estado na área para campanha eleitoral, Maria respondeu: “Pra cá ele tem muito voto, pra falar a verdade. Ele tem muito voto sabe por quê? Porque a maioria do pessoal aqui tudo mora no que é dele. E tem terreno em todo canto. O pessoal vota porque mora com ele, né? Não tem para onde ir. Tem que trabalhar para morar. O povo aqui é considerado como escravo, tem casa para morar, mas é obrigado a trabalhar”.







