A facção criminosa Comando Vermelho (CV) atuou para garantir o resultado das eleições municipais de Santa Quitéria, distante 223 quilômetros de Fortaleza. Segundo o MPCE, a facção criminosa comprava apoio político utilizando dinheiro do tráfico, expulsava moradores, proibia bandeiras e propagandas de adversários afixadas em casas, impedia passeatas e reuniões políticas e ameaçava de morte quem contrariasse essas ordens. “Inclusive, chegaram a ameaçar destruir o cartório eleitoral de Santa Quitéria, incendiando o cartório”, contou Rios.

“Quando ocorreu a eleição municipal de Santa Quitéria, foi detectado que uma das maiores organizações criminosas aqui no Estado estaria agindo para dirigir o resultado do pleito”, resumiu ao O POVO o subprocurador-geral de Justiça Jurídico do Ministério Público do Ceará (MPCE), Plácido Rios, nessa segunda-feira, 2.

Conforme o subprocurador, o MPCE recebeu uma proposta de colaboração premiada dos presos durante as investigações. A partir da deleção, a Justiça autorizou pedidos de prisão, busca e apreensão e sequestro de bens. Um dos alvos foi a comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro, onde estavam chefes da facção cearense.

Como o Comando Vermelho atuava em Santa Quitéria?

Em entrevista coletiva realizada nesta terça-feira, 3, com membros do MPCE e órgãos de segurança, foi explicada a forma com que organizações criminosas influenciaram as eleições 2024 em Santa Quitéria. Ocasião em que também foi explicado o funcionamento de operação conjunta das polícias civis do Ceará e do Rio de Janeiro, ocorrido no último sábado, 31, que mirava chefes cearenses do Comando Vermelho que estariam escondidos na Rocinha.

O principal objetivo era capturar Anastácio Paiva Pereira (conhecido como Doze e Paulim Maluco), apontado como um dos principais chefes do CV no Ceará. No entanto, somente um dos indivíduos com mandado de prisão em aberto foi capturado.

Influência nas eleições

Anastácio também é conhecido pelo envolvimento na política de Santa Quitéria, município do qual é natural. Esse apoio teria sido decisivo para que José Braga Barrozo, o Braguinha (PSB), fosse eleito em 2020 e 2024, conforme a Polícia Civil do Ceará.

Por isso, o Ministério Público Eleitoral (MPE) pediu e a Justiça Eleitoral deferiu a cassação do mandato de Braguinha e do vice, Gardel Padeiro (PP). Ambos foram impedidos de assumirem os mandatos e Braguinha chegou a ser preso no início deste ano, acusado de envolvimento com o traficante, mas conseguiu ter a prisão preventiva convertida para domiciliar, após alegar problemas de saúde.

Segundo os procuradores de Justiça, foi significativa a influência da facção criminosa nas eleições passadas, especificamente em Santa Quitéria. A interferência no processo eleitoral do município ocorreu através de várias ações, incluindo:

  • Constrangimento de candidatos adversários;
  • Ameaças a pessoas que afixavam imagens publicitárias de candidatos adversários;
  • Repressão a qualquer ato de livre manifestação eleitoral, como carreatas, passeatas e reuniões;
  • Ameaças de morte a pessoas;
  • Tiros em casas e muros de casas;
  • Ameaças aos servidores da Justiça Eleitoral, com intenção de tocar fogo ou destruir o cartório eleitoral.

Essas ações criaram um “clima muito tenso” durante as eleições na cidade. Apesar da atuação da Promotoria de Justiça Eleitoral e dos órgãos de segurança pública (Polícia Civil, Polícia Federal, Polícia Militar) para restabelecer a ideia do pleito eleitoral, os candidatos que foram apoiados por essa organização criminosa lograram êxito e foram eleitos.

No entanto, em maio deste ano, a Justiça Eleitoral, em face de uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (Aije), cassou os mandatos do prefeito, do vice-prefeito e de outros vereadores eleitos sob essa condição. Também já tramita uma ação penal contra essas mesmas pessoas no Tribunal Regional Eleitoral (TRE-CE).

Fonte: O Povo

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