O estudo mostra que quatro em cada dez cearenses (40%) mudam a rotina ou hábito do dia a dia devido à falta de segurança por ser mulher. Esse sentimento condiciona a forma como elas decidem se locomover nas cidades: escolhem ruas iluminadas, espaços públicos mais movimentados, evitam sair sozinhas — especialmente à noite —, avisam a alguém de confiança quando saem ou chegam ao destino.
As informações constam na pesquisa “Mulher Coragem, os medos e demandas das mulheres cearenses por segurança”, realizada em 2025, como parte do Projeto Elas, do Diário do Nordeste, que publica a série de reportagens “Mulher Coragem”. O especial é todo baseado no documento, encomendado pelo jornal ao Instituto Patrícia Galvão e executado pelo instituto Ipsos-Ipec, com o patrocínio da Assembleia Legislativa do Ceará (Alece).
O levantamento também evidencia que as restrições se manifestam de formas diferentes por idade e território que habitam. Por exemplo: as mulheres mais jovens, de 16 a 24 anos (48%) e que moram na Capital (48%) têm mais costume de mudar a rotina do que aquelas com 60 anos ou mais (29%) e que moram no Noroeste do Estado (27%).
A pesquisa foi dividida em duas partes: a qualitativa, com seis especialistas participantes que são envolvidas direta ou indiretamente com o debate sobre direitos das mulheres e violência contra mulher, e com um grupo de mulheres com 16 anos ou mais. Já a quantitativa ocorreu de forma presencial e domiciliar com 2.032 meninas e mulheres de 16 anos ou mais de idade, moradoras de 77 municípios cearenses, entre os dias 1º e 14 de outubro de 2025.
Os trajetos desse público para casa, trabalho, academia, instituições educacionais ou locais de lazer são marcados pela hipervigilância e cálculos de rotas seguras. É uma realidade cheia de obstáculos que limitam a mobilidade e o direito das mulheres à cidade, bem como moldam o desenvolvimento psicológico e profissional delas.
“Se for uma rua escura, deserta, ou um local que passa por determinados lugares em que não se sente confortável, ela muda o percurso por ser mulher. É uma coisa que, para muitos homens, não faz o menor sentido. Isso não entra no planejamento de viagem deles”, reflete Camila Bandeira, arquiteta, professora e coordenadora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Fortaleza (Unifor), em entrevista ao Diário do Nordeste.
A psicóloga Layza Castelo Branco reforça: a forma como o indivíduo se insere na cidade varia diante do gênero e das suas experiências. Ela traz o exemplo de que mulheres que foram vítimas de algum tipo de violência na rua podem perder a capacidade de sair para espaços públicos.
Por outro lado, aquelas que não sofreram violência direta, mas que tenham presenciado uma ocorrência ou sido impactadas por notícias, vão utilizar estratégias mentais para se deslocar com mais segurança “mesmo sem ter 100% de certeza de que alguma coisa não vai acontecer”.
Nos 77 municípios cearenses estudados pela pesquisa, as mulheres vivem os espaços públicos com mais medo e sentem menos a liberdade de ir e vir. O principal receio delas nas ruas, parques ou praças é o de serem assaltadas, roubadas ou furtadas (52%).
“Além do assédio, tem o assalto também. Eles visam a gente como um alvo fraco. Já fui assaltada umas quatro vezes. Eles percebem que é uma garota quase indefesa e xingam, levam suas coisas, tratam mal. É bem cruel”, relata um jovem de Juazeiro do Norte à pesquisa qualitativa.
Aquelas que moram na Capital apresentam patamar de insegurança maior nas áreas públicas do que as que vivem no Interior: 79% das entrevistadas de Fortaleza apontam que se sentem inseguras no dia a dia de modo geral e com frequência
Conforme dados da Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp-CE), analisados pelo Diário do Nordeste, o Ceará registrou 252 casos de crimes sexuais até 28 de fevereiro deste ano. Desse número, 72 foram notificados só em Fortaleza — número que se iguala ao de casos registrados no Interior Norte.







