O jornal norte-americano The Wall Street Journal, o britânico Financial Times e a emissora norte-americana CNBC publicaram, entre a segunda-feira 26 e esta terça-feira, 27, textos que expõem o desequilíbrio das contas públicas que Luiz Inácio Lula da Silva legou a si mesmo para seu quarto mandato.
Os três canais relacionaram a derrocada do mercado brasileiro ao déficit próximo de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) e à falta de um plano para conter a dívida.
Lula derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no segundo turno, no domingo 25, por 51,8% a 48,2% dos votos. Flávio havia liderado o primeiro turno, em 4 de outubro, resultado que provocou uma onda de valorização dos ativos brasileiros. O novo mandato começa em janeiro.
A reação veio já na abertura da Bolsa brasileira. O Ibovespa caiu 10% nos primeiros minutos e teve os negócios suspensos. Na retomada, a queda continuou, e o índice fechou em baixa de 13,9%, o pior resultado diário desde o início da pandemia de covid-19.
O real perdeu cerca de 8% ante o dólar, a maior desvalorização em um único dia desde 1999. A taxa do título público de dez anos subiu 2,46 pontos porcentuais e chegou ao nível mais alto em mais de uma década. Diante de dúvidas sobre a demanda, o Tesouro Nacional cancelou dois leilões de títulos previstos para esta semana.
O conselho editorial do Wall Street Journal publicou na segunda-feira o editorial “Mercados não votam em Lula no Brasil”. O jornal registrou que a volta de Lula surpreendeu os investidores porque a economia brasileira, de US$ 2,6 trilhões, “patina” e os salários não acompanham a inflação.
“Lula conquistou um quarto mandato, e talvez haja justiça na vitória dele”, escreveu o jornal. “Agora ele precisa limpar a bagunça que herda de si mesmo quando o novo mandato começar, em janeiro.”
O texto fala da gastança pública do petista depois do primeiro turno. “Uma enxurrada de gastos do governo depois do primeiro turno é uma pista de como Lula se manteve no cargo”, afirma o WSJ. Pelas contas do jornal, o Brasil vai fechar o ano com déficit perto de 10% do PIB, acima de 8% em cada um dos quatro anos do atual mandato. A dívida pública supera 82% do PIB e continua a subir.
URGENTE: a queda de 19,8% da bolsa brasileira (em dólar) na segunda-feira foi um dos eventos de mercado mais raros das últimas duas décadas, segundo a análise da reasearch americana Kobeisse. O EWZ, ETF que replica as ações brasileiras, fechou -19,8% ontem. Foi um movimento de 8,4 desvios-padrão. Só para ter uma noção, a variação diária média do ETF nos últimos 20 anos foi de apenas +0,04%, com desvio-padrão de 2,36%. Numa distribuição normal, a probabilidade de uma queda tão extrema é de aproximadamente 1 em 58 quatrilhões. Ou seja, pelos modelos estatísticos convencionais, esse evento deveria ser praticamente impossível. O que acabou de acontecer no Brasil era *quase* impossível. Mas aconteceu.
A política fiscal frouxa, recorda o texto, obrigou o Banco Central a elevar a taxa básica de juros, a Selic, a 13,75% ao ano. “À medida que o serviço da dívida fica mais caro, o Brasil fica preso em um ciclo de déficits e endividamento crescentes”, diz o WSJ, que cita a avaliação do banco Goldman Sachs de que um ajuste “é urgentemente necessário”.
O texto também mede o custo das gestões petistas. O PT ocupou a Presidência por quase 18 dos últimos 24 anos. No período, 14 países ultrapassaram o Brasil em PIB per capita, entre eles República Dominicana, Guiana e Tailândia. O PIB cresceu 2,3% em 2025 e pode não chegar a 2% neste ano, ritmo insuficiente para reduzir a pobreza.
O jornal apontou ainda um problema de segurança jurídica. De acordo com o WSJ, o ministro do Supremo Tribunal Federal Cristiano Zanin, ex-advogado de Lula, prorrogou a votação do domingo em duas horas a pedido da campanha petista, e o Tribunal Superior Eleitoral acompanhou a decisão. “Isso lançou dúvidas sobre a legitimidade da vitória de Lula”, escreveu o conselho editorial.





