A Alternativa para a Alemanha (AfD) venceu a eleição estadual da Saxônia-Anhalt com 44,4% dos votos, segundo as pesquisas de boca de urna divulgadas na tarde deste domingo, 6. O resultado coloca a legenda diante da possibilidade inédita de assumir o governo de um Estado alemão desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

A AfD da Saxônia-Anhalt é considerada “extremista de direita” pelo serviço de Inteligência interna alemão. O partido rejeita a classificação e acusa seus adversários de tentar deslegitimar seus milhões de eleitores.

A vitória, porém, não garante que a AfD consiga governar. Ulrich Siegmund, candidato da legenda ao governo regional, pode não alcançar maioria absoluta no Parlamento estadual, segundo as projeções citadas pelo jornal The Guardian. Como a AfD descarta formar uma coalizão e os principais partidos alemães se recusam a governar com ela, a composição do próximo governo continua indefinida. A agência Reuters informou que, sem aliados, o partido precisaria conquistar sozinho a maioria das cadeiras para chegar ao poder.

Os conservadores da CDU, partido do chanceler Friedrich Merz, ficaram em segundo lugar, com cerca de 18,4%. A esquerda radical Die Linke alcançou 9,3%, enquanto os Verdes tiveram 8,7% e o Partido Social-Democrata (SPD), 8,4%. O BSW, dissidência do Die Linke, teria superado a barreira de 5% e voltado ao Parlamento estadual, contrariando as previsões anteriores.

A participação eleitoral atingiu 76,5%, segundo os dados iniciais, em um Estado de 2,1 milhões de habitantes, dos quais cerca de 1,7 milhão estavam aptos a votar. “Fizemos história neste Estado”, afirmou Siegmund, ao comemorar o resultado diante de apoiadores. Durante a campanha, ele apresentou a vitória como um passo para que a legenda chegue ao poder nacional nas eleições federais de 2029 ou 2033.

A copresidente da AfD Alice Weidel, que atua ao lado de Tino Chrupalla, classificou o resultado como histórico e disse que o partido recebeu um “mandato claro” para governar. A legenda, entretanto, poderá enfrentar negociações complexas para tentar viabilizar uma maioria. O BSW, que superou a cláusula de barreira, já demonstrou disposição para cooperar com a AfD em temas como a reforma dos preços da energia.

A CDU chamou o desempenho de “amargo” e admitiu uma derrota política. Franziska Hoppermann, secretária-geral do partido, afirmou que o resultado representava uma derrota dos democratas que governaram o Estado nas últimas três décadas e meia. Mesmo assim, descartou qualquer mudança na posição da legenda sobre uma eventual aliança com a AfD.

O revés aumenta a pressão sobre Merz. O chanceler assumiu o governo prometendo reanimar a economia alemã, mas enfrenta dificuldades para entregar crescimento. Uma pesquisa mostrou que apenas 9% dos eleitores da Saxônia-Anhalt estavam satisfeitos com sua política. Outra sondagem mostrou que 87% da população do Estado estava insatisfeita com o governo federal.

Entre os eleitores que abandonaram a CDU, a principal justificativa foi a avaliação de que o partido não havia cumprido suas promessas. O ministro das Finanças, Lars Klingbeil, afirmou que o resultado deveria ser entendido como um recado dirigido a Berlim.

A eleição também expôs a força nacional alcançada pela AfD. A legenda, criada em 2013, já aparece à frente da CDU nas pesquisas para o país inteiro. Levantamento recente do instituto Insa apontou 28% de intenção de voto para a AfD, contra 20% dos conservadores.

A expansão é particularmente forte no antigo território da Alemanha Oriental, mas já ultrapassou essa fronteira. No início do ano, a AfD obteve aproximadamente 20% dos votos em Baden-Württemberg e na Renânia-Palatinado, dois Estados do oeste alemão.

Na Saxônia-Anhalt, a legenda praticamente dobrou sua votação de 2021, quando havia alcançado 23,7%. O Estado, governado pela CDU desde 2002 em alianças com partidos menores, tornou-se assim o principal teste eleitoral enfrentado por Merz desde que chegou ao poder.

As propostas da AfD

Siegmund construiu sua campanha em torno da imigração, segurança e identidade nacional. Entre suas propostas estão uma ofensiva de deportações e de chamada “remigração”, a separação de filhos de refugiados em classes específicas e uma mudança nos valores ensinados nas escolas e instituições culturais.

O candidato também defende a proibição de bandeiras do arco-íris nas escolas, a presença diária da bandeira alemã e a retomada do canto do hino nacional em cerimônias escolares. Quer ainda substituir o atual lema regional, Think Modern, por Think German.

Outras propostas incluem patrulhas de cidadãos, maior oferta de russo nas escolas e a suspensão da construção de novos parques eólicos.

A legenda também defende mudanças na política externa. É favorável à retomada de relações com a Rússia, quer interromper o apoio alemão à Ucrânia e se opõe à manutenção do status de refugiados para ucranianos. O partido ainda propõe abandonar o euro.

Durante a campanha, Siegmund explorou a chamada ostalgie, nostalgia por aspectos da antiga Alemanha Oriental, e o descontentamento de parte da população do leste. O candidato citou repetidamente um suposto aumento de crimes relacionados a estrangeiros, embora a criminalidade tenha caído de forma significativa.

O crescimento da AfD provocou mobilizações de seus adversários. Milhares de pessoas participaram no sábado de um “festival da democracia” em Magdeburgo, capital estadual. Na fachada da catedral da cidade foi projetada a mensagem de que o amor pela pátria não significava apoiar a AfD.

O bispo de Magdeburgo, Gerhard Feige, também alertou contra forças políticas que, segundo ele, procuram estimular divisão, desconfiança e medo. Ao citar as experiências históricas da Alemanha, afirmou que uma democracia pode ter condições de destruir a si própria.

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