Um relatório de inteligência da Polícia Federal usado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF) no Inquérito das Fake News, contém padrões de linguagem e estrutura compatíveis com textos produzidos ou revisados com auxílio de inteligência artificial (IA), segundo análises feitas pelo ChatGPT e pelo Claude.

Os dois modelos estimaram em 75% e 73%, respectivamente, a probabilidade de participação de IA na elaboração do material. Outros dois modelos submetidos ao mesmo teste chegaram a resultados opostos: o Gemini estimou a probabilidade em 5%, enquanto o Grok apontou 15%.

Entre os critérios estão repetição excessiva de palavras ou estruturas sintáticas, regularidade do estilo, construções semelhantes a modelos predefinidos, naturalidade do discurso, contextualização e qualidade dos exemplos.

As quatro ferramentas receberam o mesmo documento e o mesmo comando de análise. O prompt foi elaborado pelo professor Marcelo Sabbatini, da Universidade Federal de Pernambuco, para identificar características aparentes associadas a textos gerados por IA. As avaliações não permitem determinar a autoria do documento nem comprovar o emprego da tecnologia.

Estruturas repetidas chamaram atenção da IA

ChatGPT e Claude apontaram como um dos principais indícios a repetição de uma mesma estrutura ao longo do relatório. O documento apresenta, várias vezes, uma sequência com fatos, avaliação, grau de confiança, hipóteses alternativas, riscos e recomendações. Expressões como “Avalia-se que”, “Registre-se” e “Grau de confiança” também aparecem com frequência.

Os dois modelos também destacaram a repetição de frases construídas em oposição, como “não é X, mas Y”. O Claude chamou atenção ainda para frases de efeito usadas no fim de análises e para trechos em que o texto explica os limites das próprias conclusões.

Para o ChatGPT, a repetição dessas estruturas e a forma como os argumentos são organizados são compatíveis com o uso de IA na redação, organização ou revisão do relatório. Isso não significa, porém, que todo o conteúdo tenha sido produzido pela tecnologia.

O Claude chegou a uma conclusão semelhante. Entre os principais sinais, apontou “a uniformidade estrutural”, “a repetição quase mecânica das tríades de ‘grau de confiança’” e a repetição de formas semelhantes de construir argumentos e explicar o grau de certeza das análises.

No entanto, o relatório traz informações específicas, como datas, números de procedimentos, leis, valores, nomes e referências a documentos. Para ChatGPT e Claude, esse nível de detalhe pesa contra a hipótese de um texto genérico produzido por IA, mas não afasta a possibilidade de uso da tecnologia para organizar, redigir ou revisar informações fornecidas por uma pessoa.

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