Antes mesmo de o ano completar os seis primeiros meses, o Ceará soma 3.408 denúncias de violência contra a pessoa idosa, segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania (MDHC).
A estatística apresenta um acréscimo de 6% em relação à primeira metade do ano passado, quando 3.187 denúncias foram registradas.
Em cenário geral, os idosos só não sofrem mais violações de direitos que as crianças e adolescentes no Ceará, que já ultrapassam as quatro mil denúncias este ano.
Segundo o promotor de justiça do idoso, Alexandre Alcântara, a presença desses dois grupos como os que mais sofrem violência está relacionada com a dependência que o ser humano tem de outras pessoas no início e no final da vida.
Em ambas as épocas, a pessoa não possui autonomia completa e em casos extremos, depende de outrem para realizadas atividades básicas como tomar banho ou se alimentar.
“Nesses dois períodos de vida você tem incapacidades, situação de dependência, perda, no caso das pessoas idosas, de autonomia… nas crianças tem a ausência de autonomia. São características dessas fases da vida que levam a uma maior vulnerabilidade desses dois grupos”, pontua o promotor do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE).
Nono estado brasileiro com mais casos de violência contra idoso em 2026, o Ceará tem as denúncias concentradas na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF).
Especialistas apontam que esse número é apenas a “ponta do iceberg”, já que boa parte dos casos de violência não chega até plataformas de denúncia como o Disque 100, usado pelo MDHC para monitorar os alertas de maus-tratos.
Os motivos para essa subnotificação vão desde a falta de acesso a plataformas ou locais de denúncia, até o desconhecimento de que a situação pela qual ele está passando é uma violência.
“O que nós recebemos de forma constante são pessoas, geralmente mulheres, que tiveram sua casa ocupada por algum filho ou neto e aquela convivência não é saudável. Há situações de tensão, ameaça velada e a pessoa procura uma espécie de tutela, de medida protetiva para si mesma”, pontua a defensora pública e membro da 3° Defensoria Pública da Pessoa Idosa de Fortaleza, Michele Camelo.
Violência física é a mais recorrente no Ceará
Os dados coletados pelo MDHC registram diferentes tipos de violência, seja contra a integridade do idoso, saúde ou patrimônio.
Dentre as mais de 3.408 denúncias feitas no Ceará este ano, 88% apontavam possíveis agressões físicas contra o idoso.
Segundo Alcântara, um dos fatores para essas prevalência da violência física é o contexto social estressante no qual muitos idosos estão inseridos, especialmente nas periferias.
“Quando você tem um ambiente familiar extremamente estressado por conta das questões de pobreza, desigualdade e deficiência habitacional, você tem um ambiente propício e desencadeador de violências físicas, psicológicas e etc. Temos que entender essa violência dentro de um contexto mais geral de violência estrutural e institucional”, explica o promotor.
Nos casos onde essa violência já está acontecendo, um dos direitos do idoso é a denúncia e instauração de inquérito policial para investigar as possíveis agressões.
Confirmada a violência, o idoso pode entrar com um pedido de medida protetiva, a fim de se distanciar do agressor.
“A pessoa procura a delegacia ou o Ministério Público onde é instaurado o inquérito de investigação e dentro da Defensoria Pública a gente faz o pedido de medida protetiva, para que essa pessoa agressora se afaste”. Essa medida protetiva é algo que a Defensoria, o Ministério Público e a delegacia especializada trabalham”, afirma Camelo.
Um obstáculo para essa denúncia, entretanto, é o vínculo afetivo por vezes existente entre vítima e agressor. Das 3.408 denúncias feitas este ano no Estado, em 3.130, a violência acontecia na casa do idoso, ou na residência em que ela mora com que a agride.
Muitas vezes os agressores são filhos, netos, ou alguém com quem a pessoa idosa tem um vínculo próximo. Há também o agravante de algumas vítimas sentirem medo de ser um fardo para os entes queridos ou acharem que eles não têm responsabilidade sobre os mais velhos.
“O grande problema dessa violência doméstica é que em regra há um vínculo emocional muito forte. Na minha experiência de promotor de justiça, a pessoa idosa aguenta a violência calado até não suportar mais. Há esse problema dessa perspectiva intrafamiliar”, conclui Alcântara.







