O Brasil registrou em 2025 o maior número de feminicídios desde que o crime passou a ser tipificado na legislação nacional, em 2015. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que 1.568 mulheres foram assassinadas em razão de sua condição de gênero no ano passado, um aumento de 4,7% em relação ao período anterior. Somente nos três primeiros meses deste ano, já foram contabilizados 399 casos.
Os números reforçam o alerta de especialistas sobre a persistência da violência contra a mulher, especialmente dentro do ambiente doméstico. Em grande parte das ocorrências, os autores dos crimes são companheiros ou ex-companheiros das vítimas, um padrão que se repete em diferentes regiões do país.
No Ceará, casos recentes evidenciam essa realidade. Em Quixeramobim, uma jovem de 21 anos sobreviveu a uma tentativa de feminicídio após ser atacada com golpes de foice. Em Fortaleza, uma mulher de 51 anos foi morta a facadas pelo ex-companheiro enquanto participava de um momento de oração em uma residência no bairro Bom Sucesso.
Embora tenham ocorrido em contextos distintos, os episódios apresentam características semelhantes às observadas nacionalmente e ajudam a compreender a dimensão do problema.
Feminicídios no Brasil alcançam maior número da série histórica
O levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que oito em cada dez feminicídios foram cometidos por companheiros ou ex-companheiros das vítimas.
Outro dado que chama atenção é o local onde os crimes acontecem. A maioria dos assassinatos ocorre dentro da própria residência da mulher, evidenciando que a violência doméstica continua sendo um dos principais fatores associados ao feminicídio.
Os números também revelam que, em quase metade dos casos, os agressores utilizam objetos comuns do cotidiano, como facas, machados e outros instrumentos de fácil acesso.
Para especialistas, esses dados demonstram que o feminicídio raramente surge de forma isolada. Em muitos casos, ele representa o desfecho mais grave de um ciclo prolongado de agressões físicas, psicológicas, morais e patrimoniais.
Violência doméstica segue como principal cenário dos crimes
O estudo também revela aspectos importantes sobre o perfil das vítimas.
Mais de 60% das mulheres assassinadas são negras, evidenciando como fatores sociais e econômicos podem aumentar a vulnerabilidade diante da violência de gênero.
Especialistas apontam que dependência financeira, medo, vergonha, isolamento social e ausência de uma rede de apoio são alguns dos obstáculos que dificultam a denúncia das agressões.
A advogada Márcia Vieira, segunda vice-presidente da Comissão da Mulher da OAB Ceará, avalia que a ampliação do debate público tem contribuído para tornar mais visíveis situações que antes permaneciam restritas ao ambiente familiar.
Casos registrados no Ceará refletem realidade nacional
A violência de gênero observada em diferentes estados brasileiros também está presente no Ceará.
Muitos dos casos registrados apresentam elementos semelhantes aos identificados pelo levantamento nacional: histórico de agressões, conflitos em relações afetivas e crimes praticados dentro de ambientes familiares.
Além do impacto sobre as vítimas, os feminicídios deixam consequências profundas para filhos, familiares e comunidades inteiras, ampliando os efeitos sociais da violência.
O feminicídio costuma ser o último estágio de um ciclo de violência
A especialista destaca que a violência nem sempre começa com agressões físicas.
A Lei Maria da Penha reconhece diferentes formas de violência contra a mulher, entre elas:
- violência física;
- violência psicológica;
- violência moral;
- violência sexual;
- violência patrimonial.
A identificação precoce desses sinais é considerada fundamental para evitar a escalada das agressões e impedir que situações de risco evoluam para desfechos fatais.





