Preso duas vezes durante o avanço das investigações da Operação Compliance Zero e diante da resistência da Polícia Federal à sua proposta de colaboração premiada, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro tenta ganhar tempo nas negociações para ampliar o prazo de devolução bilionária de recursos, enquanto aposta em uma possível reviravolta jurídica no Supremo Tribunal Federal (STF).

A proposta inicial de delação, que foi rejeitada pela PF, envolveria um prazo estendido demais para a devolução de cerca de R$ 40 bilhões. A defesa disse que Vorcaro estava disposto a fazer isso em dez anos.

A reportagem apurou que autoridades envolvidas no caso interpretaram isso como uma possível estratégia para, no meio do caminho processual, a defesa buscar alguma nulidade investigativa ou jurídica. Assim, seria possível reverter eventuais condenações no STF, interrompendo ou até mesmo reavendo os pagamentos.

Nos bastidores, investigadores avaliam que Vorcaro tenta preservar o patrimônio, reduzir as perdas imediatas e manter margem de barganha enquanto o volume de provas apreendidas continua ampliando as diferentes frentes de apuração contra o entorno do Banco Master. Nesse cenário, a defesa do ex-banqueiro sofreu uma reviravolta com a saída do advogado José Luiz Oliveira Lima, o Juca, na última sexta-feira (22).

O rompimento não seria apenas uma mudança estratégica, mas o resultado de uma série de eventos que tornaram a permanência do defensor insustentável, principalmente nas conduções da delação junto ao STF. O prazo ampliado de devolução do dinheiro seria uma delas.

Outro motivo seria um suposto desentendimento entre o advogado e o ministro relator do caso no STF, André Mendonça. Fontes a par das investigações afirmam que Juca teria tentado pressionar o ministro, levantando a hipótese de recorrer à Segunda Turma, na qual hipoteticamente poderia conseguir a homologação da delação por maioria dos votos.

A Gazeta do Povo procurou o ministro e o advogado indagando sobre essa conversa, mas nenhum deles se manifestou. O espaço segue aberto.

Pesou ainda a rejeição da proposta de delação pela PF que, inicialmente, prometia ser “robusta”, mas que acabou frustrando as autoridades.

Ressarcimento de R$ 40 bi em dez anos tem suposto foco na nulidade processual

Um dos pilares da defesa envolve as negociações financeiras e a estratégia de sobrevivência jurídica de Vorcaro. Embora a PF tenha rejeitado a delação, a PGR manteve uma porta aberta, sinalizando que o acordo poderia avançar se houvesse complemento de informações e um aumento nos valores de ressarcimento aos cofres públicos, subindo para R$ 60 bilhões e com devolução imediata.

A proposta da defesa foi de R$ 40 bilhões e com devolução parcelada em uma década. Para autoridades ligadas ao caso e analistas, o prazo estendido seria estratégico, na tentativa de buscar nulidades processuais no decorrer do processo, o que poderia interromper ou mesmo fazer com que recursos já ressarcidos pelo ex-banqueiro voltassem a Vorcaro com possível nulidades alcançadas no STF.

“Vimos isso acontecer em outros casos e investigações. Não seria uma novidade. Além disso, se a defesa mantiver a mesma proposta de delação quanto à devolução dos valores e a Segunda Turma concordar com ela, há uma possibilidade de o ex-banqueiro ser salvo em algum momento processual”, alerta o criminalista Márcio Nunes.

Diante do caminho interditado na PF e os obstáculos com Mendonça no STF, Vorcaro decidiu reformular sua equipe, mas ainda sem muitas evidências sobre mudanças substanciais na proposta de delação. Ele manteve temporariamente o advogado Sérgio Leonardo, mas busca um novo defensor para tentar retomar as conversas com ministros do Supremo.

Entre os nomes cotados estaria o do advogado Daniel Bialski, que já representou o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) e que teria bom trânsito entre magistrados da Corte.

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