O inquérito da Polícia Federal que investiga esquema de corrupção em prefeituras e desvio de emendas parlamentares para compra de votos também cita duas facções criminosas, a Guardiões do Estado (GDE) e o Comando Vermelho (CV). Na apuração, a força policial descreve uma tentativa de homicídio levada a cabo no município de Canindé, no Ceará, antes das eleições de 2024, atribuída a membros da GDE e cujo mandante seria o empresário Maurício Gomes Coelho, proprietário da MK Empreendimentos.

Ainda conforme a PF, Coelho seria homem de confiança de Carlos Alberto Queiroz, conhecido como Bebeto do Choró, ex-prefeito do município e foragido da Justiça há mais de um ano.

O inquérito estabelece uma estreita ligação entre Bebeto e o deputado federal Júnior Mano (PSB) — o parlamentar nega qualquer envolvimento com o caso. Nas quase 400 páginas de relatório, o ex-prefeito do Choró é apontado como operador do deputado, ou seja, alguém cuja tarefa principal era viabilizar a distribuição de recursos desviados das emendas para a compra de votos.

Essa estrutura criminosa garantiria a eleição de aliados em cidades importantes para eles, a exemplo de Canindé, mas não se limitava a essa localidade. Em posse de Mano, por exemplo, a PF apreendeu uma listagem com pelo menos 50 prefeituras com as quais o pessebista manteria negócios juntamente com o Bebeto.

As facções, explica a PF, operavam como uma espécie de braço armado desse grupo, assegurando que apenas seus candidatos pudessem fazer campanha ou atuar nas regiões. As organizações também ameaçavam desafetos dos integrantes do bando.

Para os policiais, não há dúvida de que Bebeto era “líder e principal ‘decisor’ do esquema investigado, atuava diretamente na manipulação de recursos ilícitos e na articulação da compra de votos em Choró e Canindé”.

Noutro trecho do inquérito, o material informa que, “entre os achados mais sensíveis encontrados no acervo (conjunto de provas colhidas no curso da investigação), destaca-se um documento que causa estranheza por estar sob a guarda do parlamentar”, referindo-se a Mano, que foi alvo de mandado de busca e apreensão em Brasília em 2025.

“Trata-se”, segue a PF, “de um expediente relacionado à pré-candidatura de pessoa potencialmente vinculada à facção criminosa Comando Vermelho, conforme indicado no próprio teor do documento”.

O ofício em questão, oriundo da Promotoria Eleitoral de Pindoretama e endereçado à Polícia Federal em 15 de julho de 2024, contém pedido de instauração de procedimento para esclarecer vínculos de um concorrente a deputado estadual com uma facção.

De acordo com os policiais, “a presença desse material (em posse de Mano) não encontra justificativa plausível no contexto das funções institucionais do deputado, o que levanta questionamentos sobre o motivo de seu interesse por informações dessa natureza”.

Em seguida, a PF ressalta que, “no princípio da investigação, consta documento da Polícia Militar atribuindo apoio de determinada facção criminosa às intenções eleitorais de Bebeto” em Choró, isto é, essa combinação de compra de votos a partir de corrupção e atividade de faccionados já estava em plena atividade desde o início de funcionamento do esquema, no primeiro semestre de 2024.

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