A Polícia Federal enviou ao Supremo Tribunal Federal, recentemente, as conclusões da investigação contra o deputado federal Junior Mano no Ceará. O parlamentar do PSB, que é pré-candidato ao Senado no estado, é apontado como chefe de uma “rede estruturada de corrupção” que envolveria autoridades de todas as instâncias da política cearense.
Quebras de sigilo levaram os investigadores a um conjunto devastador de mensagens de WhatsApp, e-mails, planilhas e diálogos que registram como Junior Mano estruturou e gerenciou a organização criminosa.
Mensagens interceptadas pela PF — e enviadas ao STF para análise do ministro Gilmar Mendes — revelam a influência de Junior Mano no governo Lula e na gestão de Elmano Freitas, no Ceará. Há mensagens com Camilo Santana sobre questões políticas na eleição de 2024, com o próprio governador petista e até com figuras do meio artístico, como o cantor Wesley Safadão. O ministro dos Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, também é acionado por Junior Mano para resolver uma questão de interesse do político. O ex-presidente do Senado e deputado federal Eunício Oliveira, o deputado petista José Guimarães e o também deputado Yuri do Paredão são citados pelos investigadores.
“A associação entre esses diálogos e a presença ostensiva de figuras do Congresso Nacional na agenda política do grupo liderado por Bebeto do Choró — como Eunício Oliveira e, em outra frente, o próprio deputado federal Junior Mano — sustenta a hipótese de que os esquemas de corrupção eleitoral, desvio de recursos públicos e financiamento de campanhas operam com respaldo e articulação direta em esferas federais de poder. O relato de Bebeto sobre o controle de verbas e sua redistribuição seletiva por motivações político-partidárias revela que as práticas delitivas não estão circunscritas ao núcleo local da organização, mas integram um mecanismo mais amplo, sistemático e institucionalizado de cooptação e aparelhamento do Estado”, diz a PF.
Junior Mano, segundo a PF, usou o dinheiro desviado das emendas para financiar candidaturas de prefeitos em mais de cinquenta cidades. Depois de eleger os aliados, ele controlava as prefeituras, direcionando licitações para empresas do grupo criminoso, que desviavam os recursos.
Tudo começava com a liberação das emendas em Brasília, seguia pela formalização de contratos fraudulentos de empresas com prefeituras e terminava no desvio das verbas. Propinas foram pagas a políticos, operadores e até a jornalistas que eram remunerados para falar bem ou evitarem atacar o grupo político de Junior Mano.
“Os depoimentos revelam que Junior Mano e Bebeto do Choró operavam emendas parlamentares com cobrança de retorno financeiro, estrutura que alimentava o caixa paralelo usado tanto para influenciar licitações quanto para irrigar campanhas. Junior Mano utilizava sua influência para interferir em nomeações e decisões da Caixa Econômica Federal, instituição responsável pela operacionalização de contratos de repasse que alimentavam o esquema. A menção expressa de Bebeto à necessidade de pagar situação ao deputado, bem como os diálogos em que Adriano Almeida negociava acertos financeiros, confirmam a destinação de recursos ao parlamentar”, diz a PF.
De acordo com a investigação, o esquema movimentou 800 milhões de reais entre 2020 e 2025, a partir de 16 empresas vinculadas à organização criminosa. A descoberta da organização, com todos os políticos que receberam dinheiro nesse período, só foi possível porque Junior Mano e outros comparsas, além das empresas do bando, guardavam todos os detalhes dos movimentos nos celulares e computadores.
“O deputado federal conhecido como Junior Mano, figura como líder político do grupo criminoso, atuando em parceria e sociedade com Bebeto do Choró na articulação e investimento eleitoral, além da obtenção de recursos públicos destinados ao financiamento clandestino de campanhas. Os diálogos captados demonstram que o parlamentar participava ativamente das tratativas eleitorais”, diz a PF.








