Uma investigação sobre tráfico de drogas na região do Vale do Jaguaribe, no Ceará, revelou o envolvimento de uma facção criminosa na eleição de vereadores em Morada Nova, no ano passado. O esquema originou a Operação Traditori, deflagrada nesta quinta-feira (12).

Segundo Daniel Pinheiro, delegado da Polícia Federal, isso fazia parte de uma estratégia inicial do grupo criminoso para se infiltrar na vida política.

“É uma facção que começa a tentar ingressar nessa dinâmica referente a esse elo político aqui do estado do Ceará. O foco dos vereadores era receber esse dinheiro e se eleger, com determinadas promessas para a organização criminosa: algumas nomeações que foram feitas e outros (compromissos) que de fato a investigação é que vai dizer”, explicou ao PontoPoder.

O financiamento ilícito das campanhas era proveniente de uma empresa de fachada, que chegou a movimentar R$ 100 milhões entre diversas atividades ilegais, incluindo a referente às eleições. O delegado preferiu não revelar mais detalhes a respeito da instituição, como o setor em que atuava e com que atores firmava contratos.

Ainda conforme o policial, os vereadores atuavam como figuras centrais do braço político da facção, com participações distintas, mas não operavam diretamente a atividade de tráfico.

“Isso nos chamou muita atenção, de como um vereador tem realmente esse trato direto com uma facção criminosa. De ser uma pessoa conhecida na região como um faccionado, uma liderança de facção criminosa”, comentou, ainda.

A partir dessa investigação, a 93ª Zona Eleitoral de Fortaleza expediu mandados de prisão preventiva contra cinco vereadores de Morada Nova, cumpridos nesta quinta-feira pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado no Ceará (FICCO/CE). São eles:

  • Hilmar Sérgio (PT) – presidente da Câmara Municipal;
  • Gleide Rabelo (PT) – 1ª secretária na Mesa Diretora da Câmara;
  • Régis Rumão (PP) – vereador da Câmara Municipal;
  • Júnior do Dedé (PSB) – vereador licenciado e secretário de Administração do município;
  • Cláudio Maroca (PT) – vereador da Câmara Municipal.

Os agentes também cumpriram 30 mandados de busca e apreensão em Fortaleza, Chorozinho, Morada Nova, Limoeiro do Norte e Pedra Branca, no Ceará, além da cidade de São Paulo (SP). Foram vistoriados endereços como a própria Câmara Municipal, além de residências e empresas ligadas aos investigados.

Também foi alvo de diligências o titular da Superintendência de Obras Hidráulicas do Estado (Sohidra), Marco Bica (PT), que havia sido candidato a prefeito em 2024. Ele não chegou a ser preso, mas decidiu se afastar do cargo “para preservar a Sohidra e garantir a tranquilidade das investigações”.

Como saldo da operação, ainda foram apreendidas quantias em dinheiro, veículos, celulares e computadores.

“Nós temos um material probatório colhido hoje, então é analisar para concluir e entregar para o Ministério Público Eleitoral e para o juiz eleitoral para que a gente possa, a partir daqui, responsabilizá-los na ação penal”, concluiu o delegado da PF, Daniel Pinheiro.

Suspeita de crime eleitoral surgiu depois

O processo é sigiloso. Contudo, Daniel Pinheiro revelou que os vínculos políticos da facção não eram o foco inicial da investigação, mas sim o fluxo financeiro em si, turbinado principalmente pelo tráfico de drogas.

Seguindo o dinheiro, chegaram à trama em questão. Por isso, conforme o delegado da Polícia Civil de Morada Nova, Erivelton Almeida, a PF foi agregada ao processo somente após o surgimento de indícios de crime eleitoral.

“Em 2024, a gente instaurou um inquérito para investigar tráfico de drogas e organização criminosa na cidade. Era a Polícia Civil de Morada Nova, juntamente com o Departamento do Interior Sul (DPI Sul – PCCE). Nessa operação, a investigação culminou em 21 mandados de prisão, cumpridos em fevereiro de 2025 contra membros dessa facção”, relatou Almeida.

Dentre eles, havia o coordenador financeiro do grupo criminoso, que ligou a investigação inicial à política de Morada Nova. O homem, cuja identidade não foi revelada, usava parte dos rendimentos das atividades ilícitas em novos investimentos. O financiamento de campanhas eleitorais era um dos destinos.

“Como é um crime eleitoral, a gente repassou esse material para a Polícia Federal”, descreveu.

A partir daí, a operação desta quinta ocorreu por meio da FICCO/CE. A composição reúne forças de segurança estaduais e federais, incluindo Polícia Civil do Ceará (PCCE), Polícia Federal, Polícia Militar do Ceará (PMCE), Polícia Rodoviária Federal (PRF), Secretaria da Administração Penitenciária e Ressocialização (SAP), Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) e Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce).

Repercussão da operação

O PT Ceará informou, por meio de sua secretaria de comunicação, que ainda não teve acesso ao processo e não foi notificado oficialmente até o momento. Já o PSB e o PP, não se pronunciaram. A reportagem será atualizada quando houver algum retorno.

A Prefeitura de Morada Nova, por sua vez, informou não ser alvo da investigação e não possuir qualquer envolvimento com os fatos apurados. A Câmara Municipal também emitiu nota após a operação, mas apenas informando que os trabalhos administrativos e legislativos desta quinta-feira seriam suspensos, sem comentar as diligências.

A reportagem ainda procurou a vereadora Jane Martins (PDT), vice-presidente da Casa, para mais detalhes sobre os trabalhos parlamentares, mas não houve retorno.

COMENTAR