A ausência de uma rede de esgoto molda o cotidiano de qualquer cidade, falta do serviço de saneamento básico no Ceará fez com que cerca de 779 mil (24,1%) domicílios descartem seus excrementos em locais como fossa rudimentar, valas, rio, lago ou o mar, de acordo com a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios). O Ceará tem o 5° pior resultados do país.

No ranking dos estados Brasileiros, a unidade federativa aparece em quinta colocação quanto ao número de casas que utilizam desses outros meios para esgotamento, ficando atrás da Bahia (1.112.000), do Pará (962 mil), de Minas Gerais (909 mil), e do Maranhão, que tem 827 mil domícilios utilizando da prática.

Para aportar de forma correta esses dejetos, existe a rede de esgoto, que é um sistema de tubulações projetado para coletar, transportar e tratar águas residuais. No entanto, somente 54,8% dos domícilios cearenses tinham acesso a esse sistema no ano passado, ou a uma fossa séptica que fosse ligada à rede.

No balanço, é possível também ver dados de municípios brasileiros. Fortaleza, por exemplo, tinha em 2024 um total de 26 mil residências que usavam meios inadequados para depositar dejetos. No comparativo das capitais nordestinas, Cidade fica atrás apenas de: Recife (123 mil), Maceió (74 mil) e Teresina (28 mil).

Números jogam luz não apenas na falta de esgotamento adequado, mas no impacto social que isso causa. De acordo com Michael Barbosa, doutor em Engenharia Sanitária, o esgotamento é “mais do que uma infraestrutura técnica”, sendo um direito básico de cidadania e, portanto, deveria ser universal.

“A população que tem acesso ao esgotamento garante saúde, segurança e bem-estar. O serviço está ligado diretamente à dignidade humana. Quando uma pessoa dispõe de coleta de tratamento de esgoto, ela vai ter ali assegurado um ambiente limpo, livre de riscos a saúde”, aponta o especialista.

“Quando as comunidades são privadas do serviço de esgotamento sanitário, é basicamente um processo de desumanização, essas pessoas passam a conviver diariamente com esgoto a céu aberto, geração de odores, insetos, contaminação da água. É como se as vidas dessas pessoas fossem consideradas menos valiosas, menos dignas do que as que tem acesso a esgotamento sanitário”, destaca ainda.

Michael Barbosa, que é também professor e pesquisador do Laboratório de Ciências do Mar, da Universidade Federal do Ceará (Labomar/UFC), aponta que essa prática de lançar o esgoto diretamente em corpos de água é muito comum em Fortaleza e se torna uma ameaça a sáude pública e à natureza.

De acordo com o especialista, dejetos possuem impurezas que podem contaminar, por exemplo, a carne do peixe do ambiente aquático-marinho que recebeu esse esgoto, como rios e demais meios aquíferos.

“A gente tem outros problemas ambientais, como a diminuição do oxigênio dissolvido na água, causado pelo excesso de matéria orgânica proveniente do esgoto. Isso acaba diminuindo o oxigênio da água e aí o peixe vai morrer, outros organismos que precisam de oxigênio vão morrer. A gente também tem um problema da eutrofização, né? Que é o excesso de nitrogênio fóssil (…) Que causa uma série de problemas ambientais em cadeia, causando também diminuição de oxigênio”, destaca Barbosa.

Especialista pontua ainda que esse esgoto pode causar danos à saúde da população, uma vez que ele não passa por tratamento adequado para retirar suas impurezas. “Quem entra em contato com aquela água, independentemente do contato, se vai tomar banho com aquela água, se vai ingerir aquela água, tem um risco de contrair doenças de veiculação hídrica (…) doenças de pele, doenças gastrointestinais”, diz.

Além disso, profissional também pontua que mesmo as alternativas artesanais buscadas podem ser prejudiciais. Em relação às fossas rudimentares, por exemplo, o professor explica que esse tipo de estrutura se trata geralmente de “um buraco cavado no chão”, com pouco mais um metro de profundidade.

Nesse sentido, todo material produzido na residência, seja de vaso de pia ou sanitário, é coletado por uma tubulação que tem como destino final a fossa. “Esse esgoto ele cai direto no solo, então não há nenhum tratamento desse esgoto, ele vai com todas as impurezas que ele tem pro solo, contaminando o solo, a água subterrânea e naturalmente pode vir a contaminar quem consumir essa água. E essa água subterrânea depois ela chega no rio pelo lençol freático e aí tem uma contaminação mais ampla”, destaca.

Fonte: O Povo

COMENTAR