As interrupções no calendário escolar de instituições de ensino brasileiras provocadas por episódios considerados de violência extrema cresceram 245,6% em dois anos. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2023, 3,6% das escolas brasileiras cujos diretores responderam ao questionário do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) informaram que o calendário escolar foi interrompido durante vários dias devido a episódios de violência. Trata-se de um crescimento expressivo em relação a 2021, quando apenas 1% das escolas reportaram esse tipo de paralisação.
Uma análise da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) divulgada em abril, também com dados de até 2023, já havia apontado que a violência escolar havia mais que triplicado no Brasil em um período de 10 anos. Naquele ano, segundo o Ministério de Direitos Humanos e Cidadania (MDHC), 13,1 mil pacientes foram atendidos em serviços públicos e privados de saúde, após se automutilarem, tentarem suicídio ou sofrerem ataques psicológicos e físicos no contexto educacional. Em 2013, foram 3,7 mil episódios.
“Os episódios, ameaças e tentativas de ataques de violência extrema ocorridos em 2023 certamente impactaram nessa variação ascendente do fenômeno neste período”, afirma o relatório do anuário sobre o tema neste ano. “Uma pesquisa realizada pelo Inep e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em 2023 estimou que 12,6% das escolas brasileiras relataram ter sido alvo de ameaça ou tentativa de ataque nos 12 meses anteriores à coleta dos dados. Em outras palavras, a cada oito escolas do país, uma conviveu com a iminência de uma violência de grande repercussão, ainda que não consumada”, afirma a análise do Fórum.
Apenas em 2023, foram pelo menos 15 ataques a escolas com vítimas fatais ou feridas Brasil afora. Outro dado que chama a atenção é o registro de casos de bullying: duas em cada três escolas brasileiras relataram ter vivenciado episódios de bullying grave ao longo do ano letivo.
“O bullying é algo muito sério e acontece de forma sistemática, não é episódico, é sistêmico e muito perigoso”, afirma o advogado e professor Felipe Martarelli, especialista no tema bullying e ambiente escolar, autor de um livro sobre o tema. “Essa situação obviamente não explica nem justifica um episódio de violência extrema na escola, mas muitas vezes pode ser gatilho de algo mais grave de lado a lado”, diz.
“Fora isso, o prejuízo que essa violência psicológica causa nas vítimas é muito grande. Compromete o aprendizado e todo o ambiente escolar e deixa sequelas para a vida inteira”, acrescenta Martarelli.
Ele pontua que, desde 2024, o bullying é crime — se praticado por menor de idade, é um ato infracional análogo. “Muitas vezes, a escola prefere empurrar o problema para debaixo do tapete, ser leniente com o problema, para evitar confusão. Passou da hora de uma resposta firme e estruturada da sociedade: pais, escolas e governos”, afirma.
“A violência no ambiente escolar não está melhorando, só está piorando”, afirma a psicóloga Luciana Inocêncio, especialista em crianças e adolescentes e violência escolar, que atuou no atendimento aos sobreviventes e familiares das vítimas do massacre na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, na Grande São Paulo, em 2019. O ataque deixou 10 mortos, incluindo os dois assassinos, que eram ex-alunos da escola.
“Existem dois cenários muito comuns na violência direcionada contra escolas e alunos: um é o caso de quem sofreu ou percebe que sofreu bullying e resolve se vingar disso matando ou tentando matar aquele ou aqueles que seriam responsáveis por isso. O outro é algo ainda mais perverso, que é a escolha aleatória dos alvos, pelo simples fato de serem estudantes em uma escola”, explica a psicóloga. “Fora os ataques em si, os episódios de brigas e outras situações que terminam em violência grave também só aumentam.”
Na análise da especialista, crianças e adolescentes estão muito expostos à violência, sadismo e maldade extremos nas redes sociais, sem nenhum filtro. “Isso se reflete no comportamento cada vez mais agressivo delas”, diz a especialista.
“A escola assume uma responsabilidade que ultrapassa a educação formal, que é a desestruturação do núcleo familiar, do abandono, da violência sofrida em casa, do celular grudado no rosto o dia inteiro, que a escola sozinha não tem como resolver”, aponta a psicóloga Luciana Inocêncio.







