Um levantamento feito por advogados da Câmara dos Deputados e obtido pela Gazeta do Povo mostra que 83% dos inquéritos e processos que atualmente tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF) contra parlamentares da Casa miram a direita. São, ao todo, 34 deputados alvos de processos – 26 deles são alinhados à direita, três são de centro e cinco figuram no campo da esquerda. O levantamento também mostra que as redes sociais vêm sendo um dos principais caminhos para criminalizar parlamentares. Entre os processos e investigações no Supremo, 46 (ou seja, mais de 75%) estão relacionados a publicações na internet, e 40 deles miram deputados de direita. Em termos de partidos políticos, o Partido Liberal (PL) é, de longe, a legenda que mais enfrenta retaliações no STF.

De todos os processos e inquéritos, 64% envolvem deputados do partido de Jair Bolsonaro. Já o Partido dos Trabalhadores (PT), do presidente Lula, enfrenta apenas um processo.

Ao considerar apenas as ações penais em andamento, a direita novamente é o alvo. Dos nove deputados que enfrentam processos criminais, oito são abertamente críticos ao governo Lula.

Vale destacar que os dados se referem apenas aos inquéritos e processos públicos – ou seja, a perseguição judicial a políticos da direita pode ser consideravelmente maior. Isso porque as investigações sigilosas criadas de ofício pelo Supremo, como o inquérito 4.781 – chamado de “inquérito das fake news”, focam essencialmente em parlamentares de direita.

Retaliações à direita têm a ver com eleições de 2026, diz deputado

Via de regra, o STF só abre investigações ou processos quando é provocado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) ou por outros órgãos, como a Polícia Federal. A abertura de inquérito por iniciativa própria é rara e excepcional. Mesmo assim, nos últimos anos a Corte passou a mirar figuras da direita de ofício, isto é, sem provocação externa.

Para que uma ação penal contra um parlamentar tramite no STF, os ministros precisam aceitar a denúncia apresentada. Embora várias denúncias contra parlamentares de direita tenham sido acolhidas, o Supremo rejeitou, nos últimos anos, acusações contra políticos de outros campos ideológicos.

Entre os congressistas que foram beneficiados pela recusa do STF estão, por exemplo, Aécio Neves (PSDB-MG), indiciado em 2022 por corrupção e lavagem de dinheiro; Gleisi Hoffmann e Paulo Bernardo (PT), denunciados em 2023 por corrupção passiva e lavagem de dinheiro; e Arthur Lira (PP-AL), que em 2021 e 2023 foi denunciado por corrupção e organização criminosa.

Para o deputado Gustavo Gayer (PL-GO), a ampla aceitação de denúncias pelo STF, assim como a criação de inquéritos de ofício contra membros da direita na Câmara, representa uma articulação da Corte para enfraquecer a direita, em especial os planos da oposição ao governo Lula para eleger maioria no Senado em 2026.

“Com uma crescente no número de senadores de direita, um possível pedido de impeachment de ministros do STF se torna uma realidade muito provável. Então a única forma de o Judiciário não enfrentar um impeachment logo ali seria aceitando denúncias e processando esses parlamentares para que fiquem com medo, e é isso que vem acontecendo”, diz o deputado.

O pedido para a elaboração do levantamento foi feito pelos gabinetes de Gustavo Gayer e de Marcel van Hattem (Novo-RS). Para o representante do PL, os números evidenciam uma “perseguição aberta do Supremo contra deputados de direita”.

“Os ministros insistem em dizer que agem com imparcialidade. Dizem isso agora, por exemplo, no julgamento do Bolsonaro. Mas todos veem que é uma perseguição política descarada contra a direita e o seu principal líder. E agora temos como provar isso com números”, declara.

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