Hipertensão, diabetes, problemas no coração e nas articulações. Antes consideradas ‘doenças de adultos’, hoje estão se manifestando cada vez mais cedo. Uma das razões para o cenário é o aumento da obesidade entre crianças e adolescentes. Em 2025, um relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) apontou que a prevalência de desnutrição (9,2%) entre 5 a 19 anos superou a taxa de obesidade (9,4%).

No Ceará, a situação não é diferente. Dados levantados pelo Diário do Nordeste por meio do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) do Ministério da Saúde mostram que 40% das crianças na faixa etária de 0 a 9 anos têm excesso de peso no Estado. Quando se trata da obesidade grave, condição em que o Índice de Massa Corporal (IMC) é extremamente elevado, 9 em cada 100 crianças cearenses são enquadradas nesse grau.

O cenário é resultado, principalmente, da substituição da alimentação tradicional por alimentos ultraprocessados, altamente calóricos e com menor custo benefício em relação aos itens mais saudáveis. Esse panorama preocupa especialistas porque, se as comorbidades e a obesidade não forem tratadas ainda na infância, os pacientes podem evoluir para uma vida adulta não saudável e provocar uma sobrecarga na rede pública de saúde.

“Para mim, comer muita fruta era algo saudável, mas hoje eu descobri que o excesso de tudo pode causar a obesidade”, revela Sulamita Nascimento, mãe de Ednilson Felipe. Desde 2024, a criança de 9 anos realiza o tratamento contra a obesidade no Instituto da Primeira Infância (Iprede), no bairro Parque Manibura, em Fortaleza.

Segundo Sulamita, o filho chegou até o local após indicação do médico da rede pública. “O pediatra viu que o peso dele não era de uma criança da idade dele. Ele encaminhou para um nutricionista pediátrico e nós viemos para cá”, explica em entrevista ao Diário do Nordeste, realizada na instituição.

Conforme o Ministério da Saúde, a obesidade é caracterizado pelo acúmulo excessivo de gordura corporal. A condição multifatorial é resultado de fatores genéticos, comportamentais e ambientais.

Para a realização do diagnóstico, o pediatra faz o cálculo do Índice de Massa Corporal (IMC) e analisa o valor a partir das curvas de crescimento e percentis específicos para a idade e o sexo da criança.

A mãe de Felipe conta que ele tem diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e Transtorno Opositor Desafiador (TOD). Mesmo com a seletividade alimentar, ele era uma criança que “comia de tudo”, e esse excesso pode ter levado ao ganho de peso, segundo a mãe.

“Antes, ele não tinha uma orientação de quantidade de frutas, então ele comia muito e isso causou o excesso de peso. O Felipe comia muita fruta calórica. Hoje em dia, eu tenho a quantidade exata de quanto ele pode comer cada coisa”, conta.

Especialistas ouvidos pela reportagem reforçam que a obesidade não pode ser analisada como uma ação individual da criança ou do adolescente. O ambiente, as questões sociais e econômicas são fatores que influenciam no surgimento da condição obesogênica. Assim, a obesidade é uma doença crônica, multissistêmica e que exige um tratamento para a vida toda.

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