O anúncio do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), de que rompeu com o líder do PT, Lindbergh Farias (RJ), somado à insatisfação do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) que também anunciou rompimento com líder do PT no senado Jaques Wagner (PT-BA), além de insatisfações com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, deverá dificultar ainda mais a aprovação, no Congresso, de matérias prioritárias do governo, assim como facilitar a aprovação de pautas da oposição.
O Palácio do Planalto quer aprovar, ainda neste ano, o Orçamento de 2026, a PEC da Segurança Pública, o PL Antifacção e a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF).
Além disso, batalha para barrar a votação da anistia para Jair Bolsonaro e seus apoiadores condenados pelo 8 de janeiro de 2023. Com a prisão do ex-presidente no sábado (22), a pressão da direita pelo perdão aumentou, inclusive com tentativas de obstruir votações no plenário da Câmara se a proposta não for pautada.
Na avaliação do cientista político Adriano Cerqueira, professor do Ibmec de Belo Horizonte, o prazo curto para tramitação de propostas importantes para o governo aumenta o risco de derrotas. “Estamos no final do ano, não há muita margem para alongar processos, então o governo realmente está mostrando dificuldades de negociação”, afirma.
Para ele, Lula também eleva o risco de derrotas se adotar uma estratégia de maior radicalização à esquerda, reduzindo com isso a margem de negociação com partidos do centro. “O Lula está aparentemente desistindo do centro, investindo mais em discurso e em uma feição de esquerda para seu ministério e governo. Isso não é uma situação boa para o governo no momento.”
Judicialização do governo Lula incentivou desgaste com Motta
Na tarde desta segunda (24), Motta anunciou à imprensa que havia rompido com Lindbergh Farias. O fim do diálogo resulta de uma série de ataques do líder do PT ao presidente da Câmara.
Sinal evidente da rusga apareceu em setembro, quando Lindbergh acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar barrar a PEC da Imunidades, que condicionaria a abertura de ações penais contra parlamentares à aprovação prévia do Legislativo.
Durante a votação em plenário, o petista anunciou que recorreria ao STF e, em resposta, Motta ironizou: “é um direito de Vossa Excelência ir ao Supremo, como faz quase diariamente”.
O atrito ganhou força com as negociações do projeto de lei enviado pelo governo para enfrentar as facções criminosas. Motta escolheu o deputado Guilherme Derrite (PP-SP), ex-secretário do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, o que irritou o governo. Na Câmara, coube a Lindbergh expressar o descontentamento, elevando o tom das críticas ao presidente da Câmara.
“Colocar nas mãos do secretário de Segurança do governador Tarcísio beira uma provocação”, escreveu Lindbergh no X, acrescentando que a decisão de Motta era um “desrespeito a Lula”.
A reunião de líderes de 11 de novembro também contribuiu para o acirramento. Motta reclamou da postura do governo em atacá-lo pela condução do PL Antifacção e chegou a bater na mesa em protesto contra Lindbergh.
Mesmo com a oposição do Planalto, a proposta relatada por Derrite foi aprovada na Câmara por 370 votos a 110. O texto seguiu para o Senado, onde é relatado por Alessandro Vieira (MDB-SE). O governo ainda tentará reverter as alterações feitas por Derrite, mas nesse caso o texto voltaria à Câmara.
Após Motta anunciar o rompimento, Lindbergh reagiu chamando o presidente da Câmara de “imaturo” e o acusou de conduzir articulações “na surdina”, ampliando a crise.






