Apartamento, carro de luxo e até uma aeronave foram comprados com dinheiro desviado de aposentados e pensionistas do INSS. As informações foram reveladas a partir da Operação Sem Desconto, deflagrada pela Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União (CGU), nesta terça-feira (17). Entre os suspeitos de integrar o esquema criminoso, está a deputada federal cearense Gorete Pereira (MDB), apontada como uma das líderes e principais articuladoras.
A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, autorizou o monitoramento por tornozeleira eletrônica de Gorete Pereira, além da prisão preventiva de outros dois investigados por integrar o esquema criminoso — o empresário Natjo de Lima Pinheiro e a advogada Cecília Rodrigues Mota.
A reportagem entrou em contato com a assessoria da deputada, que afirmou que “a defesa já analisa o teor da decisão” e se manifestará após reconhecimento do caso. A defesa de Cecília Rodrigues Mota não foi encontrada, e o espaço segue aberto para resposta.
Em nota, a defesa do empresário Natjo de Lima Pinheiro, disse considerar “a prisão preventiva decretada medida desnecessária e desproporcional” e que irá tentar revogar a medida. “Desde abril de 2025, o investigado já havia sido alvo de busca e apreensão e bloqueio judicial de bens, medidas que se mostraram plenamente satisfatórias. Os descontos investigados encontram-se paralisados, inexistindo risco de continuidade, e o próprio cumprimento do mandado em sua residência afasta qualquer alegação de risco de fuga”, acrescentou o advogado Bruno Queiroz.
Na decisão, o ministro do STF aponta os “inúmeros indícios” da participação da deputada cearense “nos crimes perpetrados contra o INSS mediante descontos indevidos nos benefícios previdenciários” pagos pelo órgão.
Um deles é justamente a compra, por Gorete Pereira, de um apartamento no valor de R$ 4 milhões, “em nome de uma dessas empresas de fechada” que integraria o esquema, e de um “veículo de luxo com valor superior a R$ 400 mil”.
Ainda segundo Mendonça, os dois itens foram adquiridos “com o emprego dos recursos indevidamente subtraídos de aposentados e pensionistas do INSS”.
Gorete Pereira receberia ainda “vultosas quantias de recursos ilícitos de empresas de fachada administradas por ela e por seus familiares”, entre as quais a SOP PROCESSAMENTO DE DADOS LTDA, administrada pela sobrinha de Gorete, Sofia Lilia Freitas Pereira.
O nome dela foi encontrado em planilhas e, junto a ele, “valores expressivos que lhe seriam pagos a título de propina”.
Dilapidação e ocultação de patrimônio
Gorete Pereira, que é suplente e está no exercício do mandato de deputada federal, também tinha as despesas com viagens “custeadas pelos integrantes do esquema criminoso”, descreve a decisão de André Mendonça.
Ele cita relatório da Polícia Federal que indica que o escritório de advocacia Cecília Rodrigues Mota, um dos alvos de mandado de prisão nesta terça, era um dos responsáveis pelo pagamento das despesas da deputada cearense.
É também de Cecília Rodrigues Mota o interesse por comprar um “jatinho”, conforme mostra a transcrição de mensagens de whatsapp da investigada. Ela segue o exemplo de Natjo de Lima Pinheiro, empresário também preso de forma preventiva na operação da Polícia Federal.
“Deixa de fazer corpo mole. Vai atrás desse negócio, bora comprar um jatinho. O Natjo já vai comprar um jato. Vambora entrar na fila?”, escreve a advogada a um interlocutor.
Segundo as autoridades, Natjo comprou uma aeronave e também uma BMW X 6 — o carro foi enviado posteriormente para Cecília no mesmo dia de uma das fases da “Operação Sem Desconto”, que investigava suspeitos de desvio dos benefícios do INSS.
Ao pedir a prisão preventiva de Cecília Rodrigues Mota, Natjo de Lima Pinheiro e Gorete Pereira, a Polícia Federal cita as compras destes itens de luxo como indício de que os investigados estão “praticando amplamente a ocultação e dilapidação de bens, que podem ser utilizados para a reparação dos danos aos investigados”.






