A edição de 2025 do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), aplicada neste domingo (9), chamou atenção pelo forte viés ideológico em várias questões. A prova de Linguagens e Ciências Humanas, com 90 perguntas objetivas, abordou temas como feminismo, racismo, povos indígenas, meio ambiente e crítica ao capitalismo, deixando em segundo plano conteúdos clássicos de interpretação textual e história geral.

O caderno verde, ao qual o portal Oeste teve acesso, mostra que as respostas indicadas como corretas — com base em gabarito extraoficial — reforçam perspectivas políticas específicas, especialmente nas áreas de gênero e crítica social.

Logo na questão 25, o exame reproduziu um texto da colunista Bárbara Korich (Folha de S.Paulo) e citou a escritora Naomi Wolf, autora de O mito da beleza. O enunciado discute como o corpo da mulher estaria “sob vigilância constante”, citando exemplos de Paolla Oliveira e Margot Robbie.

A questão perguntou de que modo a autora introduz essa ideia. O gabarito apontou como correta a alternativa que reconhece “exemplos de cobranças sociais dirigidas a mulheres conhecidas”.

Para críticos da abordagem, o tema reflete a ênfase crescente do Enem em discursos feministas e de gênero, mesmo em contextos que poderiam explorar análises literárias ou linguísticas de forma mais ampla.

Questões raciais e indígenas

Em Racismo e povos originários, a prova apresentou um cartaz do Unicef afirmando que crianças negras e indígenas sofrem discriminação e carecem de acesso à educação e saúde. O candidato deveria identificar o propósito da campanha — “combater o preconceito racial na infância”.

Outras perguntas destacaram a Lei nº 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino da história afro-brasileira, e obras do artista Dalton Paula, exaltando o “protagonismo de figuras negras e indígenas invisibilizadas”.

As alternativas corretas, segundo o gabarito, reforçaram a valorização de identidades sociais e raciais, abordagem já recorrente nas provas recentes do Enem.

Crítica ao capitalismo e à sociedade industrial

Um dos pontos mais explícitos de viés ideológico aparece em Ciências Humanas, na questão 84, que cita o filósofo Herbert Marcuse, expoente da Escola de Frankfurt e crítico do capitalismo. O texto fala da perda da “independência de pensamento” nas sociedades modernas e pede ao candidato que reconheça o conceito de “realidade unidimensional” — ideia que denuncia o conformismo das sociedades de consumo.

O trecho é interpretado por especialistas como uma crítica velada ao modelo capitalista e industrial, alinhada ao pensamento marxista contemporâneo.

Ambientalismo e críticas ao agronegócio

O meio ambiente também teve espaço de destaque, com três questões sobre mudanças climáticas e impactos ambientais. A questão 53 relaciona o desmatamento da Amazônia à queda na produção de energia elétrica, enquanto a questão 50 atribui à crise climática a origem de problemas econômicos em países ricos, como o aumento de custos e dificuldades logísticas.

Na questão 72, o Enem associa o uso de defensivos agrícolas à “redução da diversidade biológica”, reforçando uma visão crítica do agronegócio e da produção intensiva — setor que responde por mais de 20% do PIB brasileiro.

Para analistas educacionais, a abordagem ambiental da prova tende a tratar a produção agrícola e industrial como ameaça, sem explorar os avanços tecnológicos e práticas sustentáveis do campo.

Críticas à politização do exame

A presença de temas com carga ideológica explícita reacendeu o debate sobre o uso do Enem como instrumento de formação política. Professores e especialistas apontam que o exame tem reforçado pautas identitárias e críticas ao capitalismo, em detrimento de conteúdos técnicos e neutros.

O Ministério da Educação ainda não comentou as críticas. O gabarito oficial será divulgado pelo Inep nos próximos dias, e o resultado final, em janeiro de 2026.

Fonte: Revista Oeste

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