Passados anos da criação dos cadastros nacionais de condenados por crimes sexuais como estupradores e pedófilos, o governo Lula e o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) ainda não adotaram medidas capazes de colocar as ferramentas em funcionamento. O impasse mantém a população sem acesso ao mecanismo, contrastando com o discurso de políticas de proteção às mulheres.

As leis nº 14.069/2020 e nº 15.035/2024 estabeleceram a criação de um cadastro nacional de condenados. A proposta prevê a consolidação e acesso a informações sobre autores de estupro e, posteriormente, de outros delitos sexuais, incluindo pedofilia e exploração sexual.

Entre os dados que devem ficar disponíveis para consulta pública estão o nome completo do condenado, número do CPF, crime cometido e informações sobre a pena ou medida de segurança aplicada, resguardado o sigilo das vítimas. A publicidade ocorre a partir da condenação em primeira instância.

Na prática, a medida permitiria que famílias, escolas, entidades sociais e demais instituições verificassem antecedentes relacionados a crimes sexuais. A ferramenta poderia ser utilizada, por exemplo, na contratação de funcionários por instituições que atuam com públicos vulneráveis ou por famílias interessadas em contratar serviços de transporte escolar.

A operacionalização do sistema, contudo, tornou-se alvo de um impasse institucional. De um lado, o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) sustenta que a disponibilização das informações depende da atuação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e da estruturação orçamentária necessária para o projeto. De outro, o CNJ afirma que a implementação depende de providências a cargo do Poder Executivo, especialmente no que se refere à coordenação e ao desenvolvimento da ferramenta.

O resultado é que, apesar de as leis já estarem em vigor há anos, a população segue sem acesso a ferramentas que possam trazer segurança às vítimas.

“Combate ao feminicídio é história para boi dormir”, critica senadora

A senadora Margareth Buzetti (PP-MT), autora da proposta que ampliou o cadastro para incluir pedófilos e predadores sexuais, critica a demora na implementação e vê contradição entre o discurso e a prática.

“Esse discurso de pacto contra o feminicídio é história para boi dormir, é só para ganhar eleição. Isso é para dizer que é bonzinho com mulher. Mas se as mulheres não podem se proteger de um estuprador, qual segurança elas têm? Nenhuma”, afirma a parlamentar.

Para Buzetti, a implementação do cadastro não enfrenta obstáculos tecnológicos relevantes. A senadora argumenta que os dados já estão nos sistemas do Judiciário e que bastaria uma regulamentação do CNJ para permitir a consulta pública das informações previstas em lei. Na avaliação dela, a demora decorre de falta de prioridade institucional, e não de limitações técnicas.

“O Poder Público tem capacidade de lidar com problemas complexos como a reforma tributária. E esses órgãos não conseguem fazer uma resolução para possibilitar uma consulta processual contra pedófilos?”, questiona.

Para Fabrício Rebelo, pesquisador em Direito e segurança pública, é difícil definir exatamente as causas para a demora da implementação.

“Tecnicamente, pode haver gargalos de regulamentação, integração de sistemas e definição de responsabilidades, como o próprio governo vem alegando. No entanto, do ponto de vista de política pública, parece nítido que isso não é uma prioridade para o governo, o que se reforça pela observância de que, de modo geral, ações de efetivo combate ao crime não têm sido minimamente o foco da atual gestão”, afirma.

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