Quatro anos depois de prometer ampliar a gratuidade do transporte público na Região Metropolitana, Elmano de Freitas (PT) voltou a colocar o tema no centro do discurso eleitoral. No debate da última terça-feira (29), na TV Verdes Mares, o governador apresentou o “Vai de Graça”, proposta de transporte gratuito aos fins de semana em Fortaleza. O anúncio, porém, expôs uma marca recorrente da campanha: compromissos assumidos em 2022 que não foram entregues e agora retornam ao discurso, com novos nomes e formatos.

Na campanha de 2022, Elmano dizia que pretendia levar para a Região Metropolitana a experiência de Caucaia, que havia adotado a gratuidade no transporte coletivo. “Como governador, eu quero dar essa gratuidade também”, frisou na época. A promessa não saiu do papel nos termos apresentados. Agora, quatro anos depois, a gratuidade reaparece como proposta de campanha.

O “Vai de Graça” muda o nome e o formato, mas recupera uma promessa que não foi cumprida no mandato. No debate, Ciro Gomes (PSDB) explorou justamente essa distância entre o que Elmano prometeu em 2022 e o que efetivamente entregou ao longo da gestão. A mesma cobrança apareceu na segurança pública. Elmano disse que havia prendido 5 mil “faccionados” durante a gestão. Ciro reagiu: “Mentira, pura e simples”.

Após a contestação, o governador explicou que os 5 mil correspondiam ao aumento da população carcerária, e não à prisão de 5 mil integrantes de facções em operações realizadas pelo governo. A mudança na explicação tornou o episódio um dos principais momentos do debate.

A fala inicial apresentava os 5 mil como resultado da atuação do governo contra integrantes de facções. Depois da cobrança de Ciro, Elmano passou a explicar o número como crescimento da população carcerária. O confronto colocou em evidência a diferença entre apresentar um resultado e comprovar exatamente o que aquele dado representa.

O governador também citou a contratação de 5,7 mil profissionais para a segurança e anunciou outros 6 mil. Ciro rebateu que o combate às facções não se resume à ampliação do efetivo ou da frota. “Claro que contratar viatura, contratar policial é sempre importante, mas o que tem que funcionar é o cinturão de segurança”, defendeu o ex-ministro. A cobrança foi além dos anúncios: Ciro questionou a capacidade do governo de transformar o aumento de recursos e efetivo em resultado concreto no combate ao crime organizado.

Promessas que não viraram entrega

Na educação, a cobrança foi ainda mais direta. Elmano disse que está fazendo 138 escolas de ensino médio em tempo integral. Ciro rebateu que 108 unidades haviam sido licitadas desde 2023 e questionou a falta de inaugurações. “Não terminou, não inaugurou, não botou nenhum aluno dentro”, disse o candidato, levando ao centro do debate uma diferença fundamental: o governo contabiliza obras em andamento, enquanto Ciro cobra aquilo que foi concluído e colocado em funcionamento.

Elmano citou como exemplo a Escola Estadual de Ensino Médio em Tempo Integral Professor Paulo Ayrton de Araújo, em Cajazeiras. A unidade, porém, já existia desde a década de 1970 e passou por adaptação para funcionar em tempo integral. O exemplo, portanto, não corresponde à construção de uma nova escola pela atual administração. Em fevereiro de 2026, o próprio Governo do Ceará informou que 108 escolas estavam em obras para concluir a universalização do ensino médio em tempo integral, com previsão de entrega até o fim do ano.

A informação reforça o ponto central levantado por Ciro no debate: entre licitar, anunciar e entregar existe uma diferença que ainda precisava ser vencida. O mercado de trabalho também entrou na disputa. Elmano citou 185 mil postos formais gerados durante seu mandato, enquanto Ciro questionou o impacto desse resultado sobre a renda e a qualidade das ocupações para o trabalhador cearense.

Os 185 mil correspondem ao saldo do Caged, resultado da diferença entre admissões e desligamentos no mercado formal. O indicador representa o crescimento líquido dos empregos formais no período, mas não significa que o Governo do Ceará tenha criado diretamente todos esses postos. Ao longo do debate, Ciro repetiu a mesma linha de cobrança: não bastaria contabilizar anúncios, licitações, contratações ou investimentos.

O ponto central, segundo o candidato, era saber quantas dessas iniciativas efetivamente chegaram à população como obra concluída, serviço funcionando ou resultado concreto. Foi nesse ponto que a cobrança sobre as promessas de 2022 ganhou uma síntese. Ao colocar lado a lado o que havia sido anunciado por Elmano e o que ainda estava em obras, em adaptação ou sendo novamente prometido, Ciro encerrou uma das críticas centrais do confronto com uma pergunta dirigida ao governador: “Por que que não fizeram antes?”.

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