Uma menina irritante de vestido rosa, um urso pacato que vive sozinho na floresta e histórias voltadas para crianças em idade pré-escolar. Esse é o aparentemente inofensivo ambiente do desenho Masha e o Urso, que vem atraindo milhões de seguidores em vídeos infantis no YouTube. Mas diplomatas estrangeiros no Brasil e analistas internacionais apontam que tudo é uma fachada para difundir propaganda subliminar da ditadura da Rússia.

O alerta está tendo grande repercussão no Reino Unido, na Estônia e na Ucrânia. Na semana passada a Ucrânia aplicou sanções aos produtores e baniu a série. Movimento semelhante está sendo articulado no parlamento britânico, que investiga os conteúdos apresentados no desenho.

No Brasil, um novo filme relacionado à franquia deve chegar aos cinemas em setembro e já está sendo alvo de críticas de diplomatas estrangeiros em Brasília.

“O regime de Moscou sempre utilizou a propaganda em todas as dimensões da vida pública: da imprensa ao esporte e à cultura. Um desenho infantil pode parecer inocente quando o espectador desconhece o contexto dos símbolos e das narrativas empregados”, afirma declaração pública da embaixada ucraniana no Brasil.

O filme Masha e os Ursos é apresentado como baseado em um folclórico conto russo, em que uma menina russa se perde na floresta e encontra uma casinha aparentemente abandonada, mas que pertence a uma família de três ursos.

A2 Filmes, que lançará nos cinemas brasileiros o longa Masha e os Ursos, afirmou à Gazeta do Povo que acompanha os questionamentos internacionais relacionados à animação, mas ressaltou que o filme distribuído pela empresa é uma produção distinta e não mantém vínculo de direitos ou produção com a série animada.

A acusação de difusão de propaganda russa é rejeitada pela Animaccord, empresa responsável pela produção da série. Em declarações à imprensa internacional, a companhia nega que o desenho seja uma ferramenta de propaganda estatal e afirma não manter vínculos com o governo russo.

Masha canta canções de guerra soviéticas e aparece com chapéu associado à polícia secreta

A controvérsia em torno de Masha e o Urso ganhou repercussão no Reino Unido há cerca de dois meses, onde dezenas de parlamentares pediram ao governo que avaliasse a presença da série em plataformas de televisão e streaming.

Os críticos apontam referências à cultura russa e soviética presentes em episódios da animação e questionam se o conteúdo poderia contribuir para normalizar símbolos e mensagens ligados ao país que invadiu a Ucrânia em fevereiro de 2022.

Entre os elementos citados está o episódio “A fronteira está trancada” em que a personagem aparece com roupas, acessórios ou referências associadas ao universo militar e de repressão soviético.

Um deles é o quepe da Guarda de Fronteira usado por Masha enquanto ela patrulha e protege a horta do Urso contra um coelho que tenta roubar cenouras. Trata-se de um chapéu que é associado à NKVD, a polícia secreta soviética que executou milhares de dissidentes políticos na ditadura de Josef Stálin.

“Essa continuidade não é apenas histórica: ainda hoje, a guarda de fronteiras russa integra o FSB, herdeiro institucional da KGB, esta, por sua vez, precedida pela NKVD, e encarregado também de monitorar e perseguir opositores do regime”, diz a declaração da embaixada.

Para os diplomatas o símbolo está historicamente ligado à contrainteligência, à vigilância interna e à repressão política.

“No espaço dominado por Moscou, a fronteira historicamente funcionou nos dois sentidos: dificultava tanto a entrada quanto a saída. Durante o período soviético, viajar ao exterior dependia de autorização estatal e de uma rigorosa avaliação político-ideológica, sob o controle da KGB”, diz a representação ucraniana em comentário similar a críticas divulgadas por políticos do Reino Unido e da Estônia.

Além disso, Masha aparece cantando velhas canções de guerra soviéticas e exibindo a estrela vermelha da ditadura, segundo Clare Denning, analista de Rússia da BBC Monitoring, órgão compartilhado da TV pública e da inteligência britânica.

O ministro das Relações Exteriores da Estônia, Margus Tsahkna, criticou o desenho e disse que o mundo jamais toleraria conteúdos infantis que retratassem “símbolos nazistas de forma positiva”.

“Os símbolos soviéticos merecem a mesma clareza moral. Para muitas nações, incluindo a Estônia, eles representam ocupação, assassinatos em massa, deportações e crimes contra a humanidade”, completou o ministro da Estônia.

O país dele foi forçado por décadas a integrar a URSS. A Rússia de hoje é um regime político diferente da União Soviética, que se dissolveu em 1989 com a queda do muro de Berlim. Mas é frequentemente retratada como a herdeira da URSS por países que integraram o bloco.

Tsahkna manifestou a posição da Estônia no final de junho, após a decisão da Netflix de renovar licenças e adquirir novos episódios do desenho.

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