A defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ainda tentará demonstrar, na ação penal sobre a suposta tentativa de golpe, novas contradições e inconsistências no relato do ex-ajudante de ordens Mauro Cid, cuja delação sustenta a denúncia do caso. Nesta segunda-feira (9), Cid depôs por quase quatro horas no Supremo Tribunal Federal (STF) numa das últimas etapas do processo, em que os réus podem se defender. “É fácil depor quando você tem uma memória seletiva e diz ‘lembro disso e disso’. E aí quando você entra para perguntar para ele contradições, ele diz ‘esqueci’”, disse o advogado de Bolsonaro, Celso Vilardi, ao final do depoimento de Cid. “Está lotado de contradições, desde o primeiro depoimento. Este é o sétimo depoimento, de novo diferente, não tem um depoimento idêntico”, emendou.
No depoimento, Vilardi mostrou um áudio de Cid, enviado em 8 de novembro de 2022, em que dizia a um general que “ontem o presidente, eu senti, que praticamente desistiu de qualquer coisa, ou de qualquer ação mais contundente”. No áudio, relatava que, no dia anterior, Bolsonaro “por várias vezes comentou que um possível governo Lula não daria certo, vai meter os pés pelas mãos, vai botar os servidores tudo contra ele”.
“Tanto que ontem ele comentou e pediu para deixar tudo andar, em termos de relatório, que não quer que ninguém fique pressionando nada. Ele conversou bastante tempo com Valdemar também, no começo da tarde. Ontem o general Pazuello esteve com ele, dando sugestões, ideias de como podia, de alguma forma, tocar o artigo 142 [que permite intervenção das Forças Armadas], alguma coisa assim. Ele desconversou, não quis nem saber, não deu bola para o que o general Pazuello estava levando para ele”, diz o áudio de Cid, uma referência ao ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello.
“Também deixou general Paulo Sérgio tranquilo com relação ao prazo de entrega, e o que vai ser escrito no relatório, deu a entender que o que tiver lá está bom, o que tiver está ótimo. O próprio relatório do IVL também, não quis pressionar o Valdemar, deixou rodar. E na conversa que teve depois com os empresários, ele… estava até o Hang, o cara da Centauro, estava o Meyer Nigri, estava o cara do Coco Bambu também. E ele falou ‘olha, o governo Lula vai cair de podre’, né”, diz ainda o áudio.
“Pessoal ficou um pouco de moral baixa, porque os empresários estavam querendo pressionar o presidente a pressionar o MD [Ministério da Defesa] a fazer um relatório contundente, duro, para virar o jogo e aquele negócio. Ele mesmo já descaracterizou e já falou que talvez os empresários, vocês né, vão se prejudicar muito com o Lula”, diz a parte final do áudio de Cid, reproduzida por Vilardi durante o depoimento.
O advogado então questionou o ex-ajudante de ordens sobre essa reunião com empresários, afirmando que não viu entrada deles no Palácio da Alvorada, onde Bolsonaro ficou recolhido. Indagou Cid se era mentira a reunião com empresários, e Moraes perguntou se ele não se recordava. “Não me recordo dessa mensagem… foi para quem essa mensagem?”, respondeu Cid, e Vilardi disse que foi para um general. “Bom, possivelmente foi para o general Freire Gomes, que era o general com quem tinha interlocução mais direta. Mas era o que acontecia, mostrava os altos e baixos das conversas que se tinham”, disse o coronel, em tom hesitante. Afirmou depois que não se lembrava da reunião com os empresários mencionada no áudio.
A denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) acusa Bolsonaro de se reunir com comandantes das Forças Armadas, ao longo de novembro e dezembro de 2022, após sua derrota eleitoral para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), para consultá-los sobre a eventual decretação de estado de sítio ou de defesa sobre o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para reverter o resultado da eleição.
O áudio de Cid indica que, na semana seguinte ao segundo turno, Bolsonaro não queria interferir no relatório do Ministério da Defesa, que não apontou fraude nas urnas eletrônicas, nem no relatório encomendado pelo Partido Liberal.
Nesta quarta, Cid disse no STF que “a grande preocupação do presidente, no meu ponto de vista, sempre foi encontrar uma fraude nas urnas, né, coisa que sempre foi muito ostensivo dentro da opinião do presidente. Ele sempre buscou uma fraude nas urnas”.
Com base na delação de Cid, a denúncia diz que Bolsonaro pressionou o então ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira, a adiar a divulgação do relatório para que afirmasse também que uma fraude não poderia ser descartada.
Nesta quarta, Cid disse no STF que “a grande preocupação do presidente, no meu ponto de vista, sempre foi encontrar uma fraude nas urnas, né, coisa que sempre foi muito ostensivo dentro da opinião do presidente. Ele sempre buscou uma fraude nas urnas”, disse o tenente-coronel no depoimento.
No depoimento desta segunda, Cid reafirmou essa acusação, dizendo que a conclusão do relatório foi modificada, por pressão de Bolsonaro, para ficar num “meio termo” entre uma conclusão mais técnica (de que não houve fraude) e uma política (de que teria poderia ter ocorrido uma fraude). “Não sei se foi por telefonema, conversa, reunião, mas pressão existia. Relatório era mais técnico, e tinha tendência de fazer mais político. No final chegou a meio termo que foi produzido e assinado”, disse Cid no STF.
Após Vilardi reproduzir o áudio, Moraes perguntou, com ironia, se o advogado queria adicionar à denúncia acusações contra Pazuello e os empresários. “Não, os empresários que foram aqui mencionados, não vi entrada no palácio”, respondeu. Depois do depoimento, Vilardi disse que Cid estaria mentindo ao general, que a reunião não teria ocorrido.






