A crise institucional envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) entrou no radar de economistas e gestores de capital como elemento com potencial de afastar investimentos e prejudicar a economia brasileira.

O temor, segundo os analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, é que o aumento da insegurança jurídica eleve a remuneração exigida pelos investidores para aplicar recursos no país.

O contexto pode dificultar a continuidade do ciclo de cortes de juros pelo Banco Central (BC), que, segundo analistas, poderia, em outro cenário, ser acelerado diante das contínuas reduções na perspectiva para o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.

Nesta semana, o mercado financeiro reduziu a projeção para o crescimento do PIB em 2026, de 1,93% para 1,89%, segundo o relatório Focus, divulgado pelo BC. Em janeiro, a mediana de estimativas era de 2,26%.

Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco, destaca que a crise institucional acrescenta um componente a um cenário macroeconômico que já é incerto em razão da combinação de múltiplas variáveis.

“A revisão do PIB para 1,89% poderia, isoladamente, justificar uma aceleração do ciclo de cortes da Selic. A elevação da inflação esperada para 4,65% nos próximos 12 meses impede essa conclusão automática”, explica. “O crédito depende muito mais dessa combinação do que de um único indicador”, complementa.

“A crise institucional entra exatamente nessa equação por meio do câmbio. Caso provoque uma saída persistente de capital ou aumento do hedge cambial [mecanismo usado por investidores e empresas para se proteger de oscilações da moeda], uma depreciação do real encarece produtos e insumos importados e pode retardar a desinflação”, afirma.

Insegurança jurídica começa a preocupar investidores

Em agosto, ainda antes de vir a público o relatório da Polícia Federal (PF) sobre as mensagens trocadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, a FTI Consulting publicou um relatório em que cita o aumento da incerteza jurídica e a redução da independência do Judiciário como “negativos para o ambiente de negócios”, por “gerar a percepção de erosão do Estado de Direito”.

Gustavo Assis, CEO do Asset Bank, explica que a instabilidade no STF passa a preocupar o mercado porque influencia diretamente a formação das expectativas econômicas. “Um ambiente de maior incerteza pode pressionar câmbio, curva de juros futuros e nível de risco percebido, fazendo com que investidores exijam maior remuneração para financiar determinados ativos”, diz.

Ainda é cedo para medir o impacto da crise no STF

Para Letícia Moschioni, sócia da Finscale, a tensão institucional pode acrescentar pressão se elevar o dólar e a curva de juros, mas esse efeito depende da persistência. Ela ressalta que parte desse movimento já está nos mercados financeiros, enquanto os efeitos na economia real tendem a ocorrer com defasagem.

Na semana passada, em meio ao acirramento da tensão entre ministros do STF, com levantamento de sigilos de processos e uma “guerra de ofícios”, o mercado financeiro repercutia o clima institucional.

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