Autoridades e cientistas brasileiros têm se manifestado a respeito dos diários do médico Anthony Fauci divulgados na última semana pelo Senado dos Estados Unidos. Entre as revelações dos documentos estão articulações políticas e divergências internas sobre medidas sanitárias e tratamentos contra Covid-19.

No Brasil, o caso voltou os holofotes para médicos, cientistas e divulgadores que ganharam projeção ao defender medidas oficiais e tratar determinadas posições como consenso científico. As dúvidas privadas de Fauci, no entanto, reacenderam questionamentos sobre o excesso de certeza com que essas figuras se manifestaram e sobre a desqualificação de opiniões divergentes, que eram classificadas como negacionismo ou desinformação.

“Me pergunto se agora finalmente posso publicar os numerosos estudos que fui impedido de publicar na época devido a ameaças de perseguição”, afirmou o endocrinologista e pesquisador Flavio Cadegiani em seu perfil na rede X. A postagem foi realizada após Fauci ser interrogado no Congresso dos EUA e se negar a responder 111 perguntas sobre seu trabalho como um dos principais conselheiros do presidente Donald Trump e do ex-presidente Joe Biden durante a pandemia.

Em meados de 2020 e 2021, Cadegiani testou medicamentos contra a Covid-19 no Brasil, e a revista médica The BMJ, do Reino Unido, informa que um dos estudos realizados teria constatado taxa de recuperação de 81,4%. As pesquisas, no entanto, foram consideradas “violações de ética médica e direitos humanos”, e o endocrinologista foi alvo de investigações por recomendação da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP).

No entanto, “muita coisa que era tratada como verdade absoluta agora está sendo provada como falsa”, aponta a médica e cientista Raíssa Soares em sua página no Instagram. A pesquisadora baiana também defendia o uso de medicamentos na tentativa de salvar pacientes com Covid-19 e foi criticada por cientistas, agências de checagem e integrantes da CPI da Covid no Senado Federal.

O relatório final da comissão do Senado  elaborado pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL) e aprovado pela comissão presidida por Omar Aziz (PSD-AM) — chegou a pedir indiciamento de Raíssa e de outros médicos que também defenderam o chamado “tratamento precoce” na pandemia.

“O tempo passa. A verdade aparece. E eu sigo com a consciência tranquila de quem não abandonou seus pacientes”, relatou a médica esta semana em suas redes, onde afirma já ter atendido mais de 9.500 pacientes recuperados da doença.

Em maio de 2021, inclusive, o YouTube retirou do ar uma entrevista de Raíssa concedida à Gazeta do Povo, alegando que o material contrariava sua política sobre informações médicas relacionadas à Covid-19. Na época, a médica era secretária de saúde da cidade de Porto Seguro (BA) e afirmou fazer parte de um grupo de mais de 10.000 médicos favoráveis ao tratamento precoce que, mesmo com evidências científicas, não tinham espaço no debate público sobre o tema e eram, inclusive, denunciados.

“Quando autoridades públicas são questionadas sobre decisões que impactaram milhões de vidas, é dever das instituições investigar os fatos com seriedade e permitir que a sociedade tenha acesso às informações”, alertou no último domingo (2) a especialista Nise Yamaguchi, também criticada durante a pandemia e indiciada pela CPI da Covid-19.

Médica oncologista e imunologista, ela relata que hipóteses científicas passaram a ser tratadas como conteúdo proibido, e que muitos profissionais da saúde que levantaram questionamentos ou sugeriram estratégias diferentes foram desacreditados ou silenciados.

“A ciência não pode ser construída por narrativas ou por autoridades incontestáveis. Ela exige debate, revisão permanente e liberdade para que diferentes perspectivas sejam analisadas”, escreveu Nise.

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