A Empresa de Tecnologia da Informação do Ceará (Etice), estatal vinculada à Casa Civil do Governo Elmano de Freitas (PT), prorrogou por mais nove meses o contrato firmado com a empresa IPQ Tecnologia, sediada na Bahia. Com a extensão, o contrato passa a ter validade até junho de 2026, elevando o valor, através de aditivo, em R$ 47 milhões no contrato já existente. De acordo com dados do Portal da Transparência do Governo do Ceará, consultados em 24 de outubro de 2025, a IPQ aparece com R$ 1,3 bilhão em contratos ativos, figurando como o 9º maior fornecedor do Estado. A empresa ocupa posição de destaque em contratos com o Estado, ao lado do Metrô de Fortaleza (Metrofor) e o ISGH, responsável pela rede hospitalar estadual.

A prorrogação ocorre em meio a denúncias de favorecimento e suspeitas de irregularidades envolvendo a IPQ, que já acumula contratos milionários com o governo cearense.

Segundo documentos e registros oficiais, mesmo após a prorrogação do contrato vigente, a empresa recebeu um novo contrato com o mesmo objeto e itens idênticos, apenas em quantidades maiores, somando R$ 89 milhões.

O aditivo foi assinado logo após a mudança na presidência da Etice, quando Hugo Santana, parente do ex-governador Camilo Santana, atual ministro da Educação, assumiu o comando da estatal.

A empresa baiana é responsável por contratos na área da segurança pública do Ceará. Oficialmente, presta serviços de videomonitoramento e controle de acesso em nuvem, voltados ao apoio das ações de combate à criminalidade.

Ligado politicamente ao grupo de Camilo e a Chagas Vieira, Hugo passou a dirigir a empresa pública responsável pelos principais contratos de tecnologia do Estado.

Suspeitas

Não há explicação pública para a duplicidade contratual, o que reforça dúvidas sobre transparência e economicidade. O cenário contraria o padrão esperado em casos de suspeita, investigação e apuração rigorosa, e levanta questionamentos sobre possível favorecimento político e benefícios indevidos.

As denúncias indicam que o processo de renovação da pré-qualificação da IPQ junto ao Estado teria sido conduzido de forma irregular, assegurando sua permanência entre os fornecedores habilitados.

O contexto alimenta suspeitas de que tais contratos possam ter reflexos nas campanhas eleitorais de 2026, ampliando a influência da empresa sobre áreas sensíveis do governo.

Doador de campanha

O sócio e proprietário da IPQ, Antônio Galvão Soares, consta como doador oficial da campanha de Elmano de Freitas (PT) em 2022, segundo informações oficiais registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Enquanto seu filho era constantemente visto em eventos da campanha de Elmano e Evandro Leitão.

O vínculo reforça questionamentos sobre conflito de interesses e proximidade com o núcleo político do governo.

De pai para filho

Além dos contratos da IPQ, o filho de Antônio Galvão, Heitor Galvão, também sócio da empresa, possui contratos diretos com a Etice por meio do Consórcio Master Conectado, que somam mais de R$ 300 milhões, conforme registros oficiais.

Com isso, pai e filho concentram os dois maiores contratos da Etice em valores absolutos, exercendo influência direta sobre os principais projetos tecnológicos do Estado.

A situação evidencia uma concentração de recursos públicos em torno de um mesmo grupo familiar e empresarial, levantando dúvidas sobre concorrência efetiva, imparcialidade e governança nas contratações realizadas pela estatal.

Atualmente, a Etice é o terceiro maior fornecedor do Estado do Ceará, perdendo apenas para o Metrô de Fortaleza e o Instituto de Saúde e Gestão Hospitalar (ISGH), que administra os hospitais públicos, de acordo com dados do Portal da Transparência.

Na prática, a Etice compra serviços e soluções tecnológicas de empresas privadas, muitas vezes por processos questionados, e os revende ao próprio Estado, com valores reajustados, distanciando-se da finalidade para a qual foi criada, que seria reduzir custos e otimizar a infraestrutura pública de tecnologia da informação.

Contratos da IPQ Tecnologia com Etice, ligada à Casa Civil, somam R$ 1,3 bilhão

 

Fontes afirmam que a então minúscula IPQ Tecnologia foi apresentada ao hoje ministro Camilo Santana pelo também ministro Rui Costa (PT-BA). Desde então, o secretário-chefe da Casa Civil, Chagas Vieira, passou a ser o interlocutor do negócio e virou amigo pessoal dos Galvão.

Os valores expressivos e a permanência da IPQ entre os principais fornecedores chamam atenção pela concentração de contratos, mesmo diante de questionamentos e investigações em curso, e sem visibilidade do retorno efetivo dos investimentos públicos, quando comparados a outros estados e contratos similares.

Quando comparado com São Paulo, o estado mais populoso do Brasil e com um dos menores índices de criminalidades de País, percebe-se que a tecnologia empregada no Ceará é muito inferior e várias vezes mais cara.

Riqueza de familiares

A IPQ mantém contratos estratégicos com o Governo do Ceará, especialmente na área da Segurança Pública, por meio de parcerias com a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS).

Formalmente, a empresa é responsável por soluções de videomonitoramento, armazenamento de dados em nuvem e controle digital de acesso, serviços voltados ao suporte das forças de segurança no combate à criminalidade. Paralelamente, a exibição pública de riqueza por familiares ligados aos sócios da IPQ tem provocado críticas e questionamentos sobre o enriquecimento rápido e desproporcional.

Com os índices de segurança pública em declínio e o aumento da percepção de corrupção na área de tecnologia aplicada à vigilância estatal, cresce a cobrança por transparência e investigação sobre a origem dos recursos e a lisura dos contratos firmados.

Enquanto o costume institucional seria investigar a fundo quando há suspeitas, no caso da IPQ o que se observa é o oposto: a empresa foi premiada com novos contratos e prorrogações.

Resultados ruins

Sete anos depois do anuncio do lote de câmeras para os maiores municípios do Estado e contratos de tecnologia com a IPQ, o Ceará virou um gigantesco território dominado por facções criminosas – , inclusive, as maiores do Brasil.

Em 2018, então candidato à reeleição, Camilo anunciou a compra de 700 câmeras, que seriam distribuídas em 38 municípios com população acima de 50 mil habitantes contemplados pelo videomonitoramento. A medida viria a ser ampliada para cidades com população entre 30 mil e 50 mil habitantes.

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