Especialistas apontam que as duas facções brasileiras, designadas como grupos terroristas por Argentina e Paraguai, têm laços com várias organizações criminosas de outros países. O PCC e o Comando Vermelho têm parcerias com as guerrilhas colombianas, como o Exército de Libertação Nacional (ELN) e as dissidências das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). No norte da América do Sul, outro parceiro importante do PCC é o venezuelano Tren de Aragua, que os EUA vincularam ao ditador Nicolás Maduro.

Ainda na América do Sul, investigações no Brasil apontaram elos do PCC com o Hezbollah na Tríplice Fronteira, por meio dos quais os terroristas libaneses fornecem armas para o grupo criminoso paulista e em troca recebem proteção e podem se beneficiar de rotas de cocaína operadas pela facção.

A respeito dos carteis mexicanos, a revista Veja revelou em 2022 que um documento produzido pela Embaixada do Brasil no México indicou ligações do PCC com os temidos Cartel de Sinanola e Jalisco Nova Geração.

Na Europa, a máfia calabresa ‘Ndrangheta é a principal aliada no sul da Itália, além de haver parcerias com subgrupos espanhóis, a Máfia dos Balcãs e a Máfia Albanesa, para distribuição de drogas no mercado europeu.

No Oeste da África, as facções brasileiras têm conexões com grupos criminosos na Nigéria, na Guiné e em Angola, em uma movimentação que tem mudado de característica, segundo Uchôa. Na busca por novos mercados, o PCC já chegou ao leste da África: em Moçambique, um líder importante da facção paulista, Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, foi preso em 2020.

Segundo Uchôa, essa movimentação expõe a busca dos grupos criminosos brasileiros por expandir seus negócios: o Ministério Público de São Paulo detectou que o PCC já está presente em pelo menos 28 países.

“O PCC, principalmente, tem investido no crescimento de outros mercados, como a Ásia e Oceania, porque o preço da cocaína lá é estupidamente superior ao que ele ganha na Europa, por exemplo. Enquanto na Europa vai vender por 30 mil euros o quilo de cocaína, lá vai vender por 90 mil euros”, afirmou o analista, que destacou que hoje o tráfico de drogas é apenas um dos negócios mantidos pelas facções, que também se dedicam ao garimpo ilegal, venda de gasolina e bebidas adulteradas e contrabando de cigarros.

Nesse sentido, o Brasil precisará buscar integração interna das suas forças de segurança e parcerias com outros países para conter o PCC e o Comando Vermelho.

“Um problema que era regional, era um problema de Rio e São Paulo, se tornou um problema nacional, depois um problema na América do Sul e agora um problema intercontinental. E é preciso que a gente entenda isso, que não é mais um desafio apenas para o Brasil”, disse Uchôa.

“O Brasil precisa assumir a responsabilidade de combate a essas organizações e vai precisar tanto de integração interna como regional, na América do Sul, e quase global. Não dá para trabalhar mais sozinho, para atacar organizações que estão em 28 países”, justificou.

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