Dezenas de estudantes aproveitavam o intervalo na Escola de Ensino Médio (EEM) Professor Luís Felipe, em Sobral, Ceará, quando tiveram o descanso e as conversas interrompidos por barulhos de tiros, que foram seguidos de gritos e pedidos de socorro. O episódio de violência registrado na manhã da última quinta-feira (25), que resultou na morte de 2 alunos e outros 3 feridos, ressalta o quanto a comunidade escolar está exposta, sofrendo impactos como o ocorrido, além de questões como abandono escolar, danos emocionais, impacto na aprendizagem, dentre outros problemas. Dessa forma, jovens que moram em um território controlado por um grupo rival acabam sendo impedidos de acessar o ambiente escolar. Entre os desafios que esse contexto impõe ao poder público está inclusive o dimensionamento das matrículas em cada território.
O caso de Sobral é apenas um exemplo extremo do que apontam especialistas que tratam sobre o impacto da violência: “a escola, por princípio, não é uma ilha”, e todo o aspecto da sociedade tem reflexo no cotidiano das instituições.
No caso da EEM Professor Luís Felipe, dois estudantes foram mortos e outros três ficaram feridos em um ataque a armas realizado por duas pessoas que, do lado de fora da instituição, efetuaram os tiros em direção ao estacionamento da instituição. Algumas semanas antes, no final de agosto, 16 unidades de ensino de Fortaleza, entre escolas municipais e creches, tiveram suas atividades impactadas devido a uma disputa entre facções criminosas.
Quando a violência está fora das unidades de ensino, o especialista em Educação Rogers Mendes aponta que o maior risco é a evasão escolar. Uma das causas para isso é o fato de muitas unidades, principalmente nas periferias, estarem localizadas em áreas dominadas por organizações criminosas que impõem restrições de deslocamento.
“Temos que manter determinados espaços que, por vezes, nem fossem viáveis economicamente, porque era melhor concentrar a matrícula [de diferentes unidades] em um mesmo local. Mas precisamos ter o cuidado de manter a escola funcionando para garantir o direito ao acesso”, exemplifica.
Quando os estudantes conseguem acessar a escola, temos impacto menor [da violência] na aprendizagem. Por ser uma organização didática, pedagógica, é possível conter essas situações sociais e, pelo menos naquele momento, manter a concentração.
Rogers Mendes Especialista em Educação
Quando a violência rompe a barreira física e adentra os muros das instituições— seja em ataques realizados por um dos próprios alunos ou em casos como o da EEM Professor Luís Felipe —, tem como uma de suas consequências o dano emocional a estudantes, professores e demais membros da comunidade escolar ao gerar uma sensação de medo e ansiedade.
“Todas as pessoas envolvidas na escola acabam tendo sono ruim, dificuldade de atenção, mudanças no comportamento. E há uma mudança no clima escolar. É perceptível o sofrimento entre alunos e professores e nas próprias famílias”, explica Cléo Garcia, doutoranda em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autora da pesquisa Ataques de violência extrema em escolas no Brasil.
Casos assim podem ter como efeito colateral, inclusive, o risco do abandono. “Muitas famílias não têm mais confiança em enviar os seus filhos para a escola e preferem tirá-los de lá. Então, [elas] acabam não conseguindo outra colocação e a criança acaba perdendo o ano”, complementa Garcia.
Fonte: DN







