Diagnosticado com paraplegia após ser baleado na porta de casa, o jovem Nicolas Henrique Lima Dantas, de 20 anos, ganhou uma nova esperança de recuperar parte dos movimentos. No sábado passado, 23, ele recebeu a aplicação de polilaminina, substância experimental utilizada no tratamento de paraplegia e tetraplegia. “Aumentou meus horizontes”, comemora.
Realizado no Instituto Dr. José Frota, em Fortaleza, o procedimento inédito no Sistema Único de Saúde (SUS) do Ceará marca uma nova etapa na vida do jovem, que há seis meses teve a rotina completamente transformada após ser atingido por disparos de arma de fogo.
Apesar das dificuldades impostas pela nova realidade, Nicolas procura manter o bom humor. Ao receber O POVO em sua casa, brincou: “Só não vou levantar para te cumprimentar porque tô com as pernas moles”.
Ele mora com a mãe, Crislene Lima, de 37 anos, o padrasto, Lucas Samuel, de 28, e os irmãos mais novos, Christian, de 18, e Sofia, de 8, no bairro Planalto Ayrton Senna, na Capital.
Antes do incidente, a vida do jovem era marcada pela rotina intensa de trabalho como motorista de aplicativo e entregador de lanches.
“Era bem ativo em tudo. Não com as tarefas de casa porque eu tinha preguiça, claro, mas em relação a ajudar em casa, trabalho e outras coisas também”, conta rindo.
O episódio aconteceu na noite de 20 de dezembro de 2025. Nicolas chegava do trabalho por volta das 23h30min e aguardava a mãe abrir o portão de casa. O jovem estava na calçada junto com o irmão Christian, de 18 anos, e uma amiga, quando duas pessoas passaram em uma motocicleta atirando.
“O tiro principal pegou nas minhas costas e saiu pelo peito. Aí quando eu tentei virar, caí e bati a cabeça [na calçada]”, relembra. O irmão dele também foi baleado no joelho.
Os dois foram levados inicialmente para uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e, em seguida, transferidos para o IJF. No caminho, Nicolas sofreu duas paradas cardíacas.
O jovem chegou ao hospital em estado crítico e ficou mais de uma semana em coma induzido. Segundo ele, quando acordou da sedação, percebeu que havia algo errado.
“Eu não conseguia mexer nem sentir nada. Já fui entendendo que tinha alguma coisa errada comigo”, diz.
A luta pela polilaminina
Logo nos primeiros dias de internação, uma amiga da família, que já conhecia a existência da polilaminina, iniciou o processo para tentar conseguir a medicação. Entretanto, como a substância ainda está em fase de testes e estudos clínicos, foi necessário recorrer à Justiça para solicitar o tratamento.
O uso da substância foi autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), dentro das regras de uso compassivo previstas na RDC nº 38/2013. Esse tipo de autorização permite a utilização de medicamentos experimentais, ainda sem registro oficial no Brasil, em pacientes com doenças graves e sem alternativas terapêuticas disponíveis.
“Eu não acreditava que fosse dar certo. Pra mim era algo muito distante da nossa realidade, sabe? […] Mas, graças a Deus, deu tudo certo”, afirma Crislene.
Na sexta-feira passada, 22, Nicolas deu entrada no IJF e, no sábado, recebeu a aplicação da polilaminina. A cirurgia consistiu na aplicação da substância diretamente na medula, acima e abaixo da lesão da vértebra T8.
Com cerca de uma hora de duração, o procedimento foi coordenado pelo neurocirurgião Lucas Chaves, com apoio de uma equipe multiprofissional da área da saúde. O objetivo é estimular os nervos a criarem novas conexões, ajudando o paciente a recuperar parte dos movimentos.
Nicolas recebeu alta no dia seguinte e agora deve seguir realizando as sessões de fisioterapia, que já faziam parte de sua rotina, além de continuar sendo acompanhado pelos profissionais do IJF.
Fonte: O Povo






