Pentecoste, no interior do Ceará, vive o pior momento de sua história industrial. Em pouco mais de um mês, cinco fábricas encerraram operações no município, deixando mais de 923 trabalhadores sem emprego. Em junho, o Grupo Becker desativou quatro unidades: Valenti Calçados (205 demissões), Serrota Calçados (127), Pentecoste Calçados (103) e WS Calçados (93), somando 528 trabalhadores desligados nesse primeiro ciclo, um dos maiores impactos recentes sobre o mercado de trabalho da região.
Na ocasião, a empresa chegou a informar que manteria a fábrica VS Sport funcionando, inclusive com produção fortalecida. Contudo, a promessa não se confirmou. Em 22 de julho, a prefeitura de Pentecoste anunciou o encerramento também da VS Sport, com desligamento de mais 306 trabalhadores. Era a última fábrica do grupo em atividade na cidade e a única que ainda respondia por todas as etapas de fabricação dos calçados.
Com o fechamento, o total de postos extintos pelo Grupo Becker no município passa de 923, aprofundando a retração industrial e o clima de incerteza entre famílias que dependiam do setor. A VS Sport ocupava o mesmo complexo industrial antes usado pela Paquetá, gigante do setor calçadista, após quase três décadas na cidade.
“A gente não teve apoio”
As dificuldades do Grupo Becker se arrastam desde a pandemia e se agravaram com a falência da Paquetá, principal cliente das unidades cearenses terceirizadas. Ao anunciar o fechamento das quatro primeiras fábricas, em junho, o empresário Alexandre Becker, à frente do grupo, criticou o poder público: “A gente não teve apoio. Tem que deixar bem claro isso”.
A Agência de Desenvolvimento Econômico do Ceará (Adece) chegou a informar que o governo anunciaria uma nova empresa para assumir os galpões deixados pelo Grupo Becker.
Desconfiança
A história do polo calçadista ajuda a explicar a desconfiança da população com a nova promessa. Pentecoste não tinha tradição industrial até a década de 1990, quando o Ceará, sob os governos de Ciro Gomes e Tasso Jereissati, implantou política agressiva de interiorização da indústria, com incentivos fiscais e infraestrutura para atrair fábricas ao Interior.
Foi nesse contexto que a Paquetá se instalou no município, em 1996, gerando aproximadamente 2,3 mil empregos, e transformando a economia local: comércio, mercado imobiliário e transporte passaram a girar em torno da indústria calçadista. Com o fechamento da Paquetá, o Grupo Becker absorveu parte da mão de obra especializada e manteve parcela da produção por cerca de três anos, até também encerrar as atividades neste ano, alegando falta de apoio do governo estadual.
Pentecoste voltou a enfrentar perda de empregos industriais, agora potencializada pelo fechamento simultâneo de cinco unidades do mesmo grupo. Hoje a Dilly é apresentada pelo governo como solução para recompor os postos perdidos. Mas, segundo o setor, a empresa já atuava no Ceará desde 1994, ainda no governo Ciro Gomes, dentro da mesma política estadual de atração industrial daquele período, e não se trata, portanto, de investimento inédito no Estado.
“A Dilly já mantinha relação de terceirização com o Grupo Becker, especialmente em etapas como a costura. A absorção da mão de obra de Pentecoste pode ser mais uma reorganização da cadeia produtiva já existente do que a chegada de um investimento independente”, destaca uma fonte do setor calçadista ouvida pelo O Otimista.
Mais
Em nota enviada, a Adece informou que os incentivos fiscais do Ceará são regulados pelo Decreto Estadual nº 34.508/2022, que disciplina o Fundo de Desenvolvimento Industrial (FDI). Pedidos são protocolados em sistema informatizado e analisados por SDE, Sefaz, Seplag, SET, PGE e Adece, seguindo para deliberação do Condec.
A agência destacou que a Dilly confirmou unidade em Pentecoste, com previsão de gerar 500 empregos diretos até o fim do ano, priorizando mão de obra local. O anúncio foi feito pelo governador Elmano de Freitas após reunião com executivos da empresa, que assumiu compromisso de chegar a 1.200 postos de trabalho no município.







