Os senadores republicanos Ron Johnson (Wisconsin) e Rand Paul (Kentucky) divulgaram nesta 2ª feira (10.ago.2026) mensagens de janeiro de 2021 em que Anthony Fauci, então diretor do NIAID (Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA), discutiu as incertezas sobre a vacinação contra a covid-19 em gestantes e não divulgou tais suspeitas.
No comunicado, os congressistas relacionaram as mensagens a dados posteriormente publicados sobre abortos espontâneos. Parte das informações citadas, no entanto, é controversa. O percentual de 82% apresentado no documento não foi resultado do estudo científico original, mas de uma reinterpretação posterior dos dados feita pelo obstetra James Thorp.
A conversa divulgada pelos senadores foi realizada em 25 e 26 de janeiro de 2021 entre Fauci, Rochelle Walensky e Vivek Murthy. Em uma das mensagens, Fauci afirmou que a 2ª dose da vacina contra a covid-19 “teoricamente poderia estar associada a aborto espontâneo no 1º trimestre”.
Àquela altura, a campanha de vacinação havia começado poucas semanas antes nos Estados Unidos. Os dados sobre os efeitos dos imunizantes durante a gravidez ainda eram limitados. Gestantes não haviam sido incluídas nos ensaios clínicos realizados antes da autorização emergencial das vacinas de mRNA da Pfizer/BioNTech e da Moderna.
Pouco mais de uma semana depois da troca de mensagens, em 3 de fevereiro de 2021, Fauci não citou as suspeitas levantadas e disse publicamente que as informações disponíveis até então não indicavam sinais de alerta entre mulheres grávidas.
“[A FDA] descobriu até agora, e temos que ter cuidado, mas até agora não há sinais de alerta sobre isso, em relação a mulheres grávidas”, declarou.
DADOS CONTROVERSOS
O percentual de 82% citado agora pelos senadores surgiu em uma contestação posterior aos dados do estudo.
Em janeiro de 2022, Thorp criticou a forma como havia sido calculada a proporção de abortos espontâneos. O obstetra argumentou que as 700 mulheres vacinadas no 3º trimestre que tiveram filhos vivos não deveriam integrar o denominador, porque já haviam ultrapassado o período em que poderia haver um aborto espontâneo no início da gravidez.
Ao retirar essas 700 mulheres das 827 gestações concluídas, Thorp considerou as 127 restantes e dividiu por esse número os 104 abortos espontâneos. O cálculo resultou em 82%. A conta, porém, não demonstra que mulheres vacinadas no início da gravidez tinham 82% de risco de sofrer aborto espontâneo.
Isso porque as 127 gestações não representavam todas as participantes que haviam recebido a vacina nos primeiros meses de gravidez. Muitas delas ainda estavam grávidas quando a análise preliminar foi realizada e, por isso, não apareciam entre as 827 gestações já concluídas. Essa limitação havia sido reconhecida no próprio estudo. Os pesquisadores disseram que os dados disponíveis descreviam principalmente os resultados da vacinação no 3º trimestre e que seria necessário acompanhar as mulheres imunizadas no início da gestação para avaliar adequadamente esses desfechos.






